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Diários de Intercâmbio – contradições entre sonho x realidade

20 de agosto de 2021

 

Foto: Netflix/Paris Filmes / Diários de Intercâmbio / Divulgação.

Bárbara é uma jovem sonhadora de 23 anos que está lutando pelo seu sonho de conhecer o mundo. Para isso, trabalha no aeroporto vendendo revistas, na expectativa de conseguir a comissão da empresa, que é uma viagem. Sua amiga Taila também trabalha no aeroporto, mas para a companhia de táxi. Após uma tentativa falha de atingir a comissão, Bárbara se vê desolada, mas a solução que precisava estava o tempo todo em suas mãos, dentro das revistas que vendia. As duas amigas juntas partem, então, para um intercâmbio nos Estados Unidos no filme “Diários de Intercâmbio” (2021).

Taila confronta Bárbara quando ouve a ideia à primeira vista, já que o modelo de intercâmbio que cabia no bolso das duas era o au pair, quando uma pessoa vai para aprender um idioma em outro pais e morar com uma família para trabalhar para a família e receber um salário. O problema é que Bárbara mora com a mãe e não contribui com as atividades domésticas ou mesma é organizada com as próprias coisas, como daria conta de trabalhar para os outros?

Porém, Bárbara estava tão focada em suas expectativas sobre estar nos Estados Unidos e em reencontrar o ficante americano Brad que não pensa muito nisso. Em sua cabeça, olhar uma criança pequena não era difícil e no tempo livre poderia fazer o que quisesse, conhecer lugares e se encontrar com o namorado estrangeiro. Chegando a casa de Sheryll, descobriu que cuidar de um bebê não era tão fácil e que precisaria de cuidar das atividades domésticas, o que não estava nem um pouco acostumada e a deixava esgotada.

Enquanto isso, Taila não tinha muitas expectativas positivas, pois não falava a língua e muito menos era tão fã assim da cultura dos Estados Unidos. Não se via encaixando lá, mas esperava que fosse estar em uma família para cuidar de uma adolescente. Porém, ao chegar à casa da família que estaria a recebendo, descobriu que eles queriam uma companhia por sentir falta da filha, e que os hábitos alimentares e comportamentos deles eram opostos ao que ela acreditava ser saudável.

Para completar, Bárbara estava esperando aprimorar o seu inglês, mas Taila não sabia falar nada e matriculou as duas na turma mais básica possível. A aula que parecia prazerosa para Taila era entediante para Bárbara. O que era para ser um sonho se tornou uma realidade que nenhuma das duas podiam prever, mas que poderia servir para ambas aprenderem a lidar com adversidades, se abrirem para ideias e situações novas, além de saírem da zona de conforto.

Não é uma exclusividade das viagens internacionais essa questão da contradição entre sonho e realidade. Quando se fala em sonhos, estamos falando de expectativas das mais diversas: o carro dos sonhos, a casa dos sonhos, o relacionamento dos sonhos, e por aí vai. Qualquer momento que desejamos viver e idealizamos pode se tornar um sonho, uns sendo maiores e mais difíceis de se alcançar, já outros sendo menores e mais ao alcance de nossas mãos.

Independentemente do tamanho do sonho, um desejo só é chamado assim quando algo é idealizado. No campo das ideias, ou melhor, na imaginação de cada um pode-se listar uma série de possibilidades para que uma situação aconteça, mas no momento real pode ser que os acontecimentos sejam outros do que se foi pensado anteriormente. Isso é comum quando se trata de grandes mudanças ou grandes acontecimentos que são muito distantes da nossa realidade, pois o que está no campo da imaginação tem limitações de acesso a informação e há a abertura para fantasiar o que se sonha a ser vivido. 

Veja bem, não é que um sonho não possa sair como o imaginado, mas quanto menos contato com o real da situação, mais chances de idealizar o que pode acontecer. No caso do filme, o sonho de Bárbara com o intercâmbio é muito idealizado, pois o contato que ela tem com os países e possibilidades de viagens é o que lê na revista que vende. Os artigos das revistas foram escritos por pessoas que pode ou não ter ido pessoalmente nos lugares ou apenas pesquisado na internet sobre eles. Indo além, a experiência que cada um tem em uma viagem é única, a mesma situação para uma pessoa pode ser maravilhosa e para outra horrível a depender de uma série de fatores, como o quanto uma atividade pode ser prazerosa a cada pessoa.

Então significa que não podemos sonhar? Claro que podemos! Muitos feitos de nossas vidas começam como um sonho, algo que aprece distante ou difícil de se conquistar. Contudo, podemos construir o caminho para que se torne realidade aquilo que apenas se imaginava. A questão é buscar o controle de expectativas e se permitir a abertura para lidar com a frustração daquilo que não saiu como imaginado. Do contrário, o sonho se torna um pesadelo, por não estarmos preparados para aceitar a realidade. 

No primeiro momento, sair da zona de conforto e ter que aprender novas habilidades pode ser difícil, porém, se permitir viver a realidade pode ser uma experiência inesquecível, para Bárbara e para qualquer um que tente isso na vida real, não importa que sonho seja o que está correndo atrás. Apenas aceite o fato de que é impossível controlar tudo o que é necessário para que algo saia exatamente como o imaginado!

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Sheila Francisca Machado reside em Brasília, é psicóloga clínica, especialista em psicologia clínica e especializada em avaliação psicológica, CRP 01/16880. Atende adolescentes e adultos na Clínica de Nutrição e Psicologia - CLINUP. Atua com a abordagem Análise do Comportamento.
Contato: sheila_machado_@hotmail.com
Clínica Clinupclinup.blogspot.com
Instagram@empqnasdoses
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Pense Como Eles e os joguinhos do amor

13 de agosto de 2021

 

Foto: Sony Pictures / Pense Como Eles / Divulgação.

Encontrar alguém especial é a busca de muitas pessoas. E no filme “Pense Como Eles” (2012) vemos um grupo de amigos no meio dessa busca. O problema é que um livro lançado no mercado conta toda a arte da conquista masculina e com isso eles passam a ter dificuldade de conseguir o que buscam das pessoas com quem se relacionam. E será que tem como usar as informações do livro a favor dos dois lados?

No filme os personagens são encaixados em alguns estereótipos. No time masculino, temos o grupo formado por Dominic - o sonhador, Zeke - o jogador, Michael - o filhinho da mamãe, Jeremy - o sem compromisso e, para completar, temos Bennett, o amigo feliz no casamento e Cedric que está se divorciando. No time feminino temos Mya - a garota da regra dos 90 dias, Candace - a mãe solteira, Lauren - a mulher que é seu próprio homem e Kristen - a garota que quer se casar.

Sim queridos leitores, o filme faz o clássico jogo da guerra dos sexos. Por um lado, ajuda na parte cômica da trama, mas por outro aponta e reforça alguns estereótipos sobre o que o social e a cultura enxerga como comportamentos tipicamente femininos e tipicamente masculinos dentro dos relacionamentos. Conteúdo, tem seu valor para pensarmos sobre como os relacionamentos ainda passam até os dias de hoje por alguns problemas que persistem em continuar existindo: os problemas de comunicação, a dificuldade de se permitir ser íntimo de outra pessoa, as inseguranças, os conflitos de convivência e as expectativas sobre o outro.

Justamente por agir como se o primeiro contato com alguém é um jogo de conquista, Cedric está se sentindo enferrujado depois de anos casado e Zeke não deixa isso passar despercebido pelo amigo. Zeke parece saber as palavras certas para conseguir marcar de sair com alguém. E é assim que acaba conhecendo Maya, que só quer ser tratada como a garota certa e não como a garota de uma noite apenas. Assim, aplica uma das regras do livro em Zeke, para ver se esperando os 90 dias para ter relações sexuais seria o que ela precisava para que ele a olhasse como alguém para namorar.

Por outro lado, Michael é muito apegado a mãe e tem dificuldade de manter relacionamentos por não saber conciliar o tempo com a mãe e o tempo com quem namora. Ao conhecer Candace não se importa com o fato dela ter um filho e está disposto a ter um bom relacionamento com o menino por saber o que é ser filho de uma mãe solteira. Candace usa algumas dicas do livro na tentativa achar alguém que vale a pena sem perder muito tempo e o escolhido para esse teste é Michel.

Lauren é amiga de Candace e bem-sucedida profissionalmente. Sempre coloca o trabalho em primeiro lugar, deixando os relacionamentos como algo secundário. Acaba sendo bem exigente com quem conhece por querer alguém que esteja no mesmo nível que ela, tendo uma lista de pré-requisitos para namorar com alguém. O problema é que, apesar de ter potencial, Dominic ainda não atingiu seus sonhos e está tentando começar uma nova carreira. Lauren usa o que aprendeu no livro que ganhou de Candance, sem acreditar muito que poderia dar certo, para dar uma chance a Dominic, baixando seus critérios e apostando em alguém com potencial para crescer.

Já Jeremy e Kristen namoram a muito tempo e moram juntos. Jeremy está em sua zona de conforto, sem se preocupar em buscar novos desafios e novas oportunidades. Vê em Kristen uma companheira para toda hora e muito compreensiva. Kristen cansou de ser compreensiva e de esperar Jeremy pedi-la em casamento e decidi usar as dicas do livro para força-lo a fazer o pedido.

O que todos não perceberam é que ao usar as dicas do livro, começaram a mudar a forma de agir. Se uma ação não nos gera o resultado esperado, para que insistir nela, certo? Só que é muito comum não percebermos os padrões de ação que usamos e nem percebemos se essas ações estão realmente funcionando. Encontrar alguém não é uma questão de usar joguinhos, mas uma questão de conversar, conhecer mais o outro, aos poucos ir permitindo que o outro conheça nossas fragilidades e forças, e ainda envolve a possibilidade de rejeição. Ninguém quer ser rejeitado, daí tanta insegurança.

Tentar adivinhar ou ler um livro para saber o que o outro está pensando pode até parecer uma ótima ideia em um primeiro momento, mas pode trazer uma série de complicações, a medida em que se passa a interagir mais com o que achamos do que com o que realmente está ali na nossa frente. Quantos relacionamentos não ficam paralisados por conta de querermos primeiro adivinhar o que se passa na cabeça da outra pessoa ao invés de perguntar ou agir?

Quanto mais se busca aprimorar a comunicação, mais chances de se ter noção se uma pessoa é ou não é aquilo que estávamos procurando. Conselho? Existem aos montes! Isso é algo ruim? Não! Desde que saibamos avaliar se um conselho serve ou não serve para nós. No filme, com os quatro casais, à medida que a comunicação foi melhorando, mais foram se aproximando. Outro ponto que funcionou bem foi a atenção que deram a quem estava a sua frente, conhecendo melhor os gostos, os sonhos, os medos e os quereres. 

A melhor forma de conhecer alguém é a forma que der certo para você! Ter critérios é importante, mas saber quais critérios está disposto a abrir mão também é. Troque ideias, encontre pontos em comum, encontre pontos que divergem, apenas conheça o outro. Joguinhos não ajudam com muita coisa. Se não der certo, tudo bem! Nem sempre o encanto vem das duas partes. Corremos o risco de nos machucar quando nos permitimos ser íntimos, entretanto corremos o risco de nunca conhecer quem procuramos se ficarmos na defensiva, presos na insegurança. Pense no que é melhor para você e no que você procura.

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Sheila Francisca Machado reside em Brasília, é psicóloga clínica, especialista em psicologia clínica e especializada em avaliação psicológica, CRP 01/16880. Atende adolescentes e adultos na Clínica de Nutrição e Psicologia - CLINUP. Atua com a abordagem Análise do Comportamento.
Contato: sheila_machado_@hotmail.com
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Amor Garantido – os dilemas de se conhecer alguém em aplicativos e sites de relacionamento

11 de junho de 2021

 

Foto: Netflix / Amor Garantido / Divulgação.

Conhecer alguém não é fácil, não é à toa que tantas pessoas recorrem a aplicativos e sites de namoro para tentar encontrar alguém online. No filme “Amor Garantido” (2020) é nessa busca por encontrar um novo amor que Nick fez seu cadastro no site de relacionamentos Amor Garantido, que promete que você encontrará o amor em até mil encontros. Porém, após 986 encontros, Nick já não tem mais tantas esperanças e decide contratar a advogada Susan Whitaker para processar o site pela propagada enganosa.

A princípio, Susan fica com o pé atrás de aceitar o caso, já que parecia que ele apenas estava tirando proveito de uma brecha para ganhar dinheiro em cima da empresa dona do site. Mas, por ter poucos clientes pagantes e muitos clientes pro bono (pelo bem público, que geralmente são gratuitos ou a baixo custo), vê a oportunidade como uma forma de propaganda do próprio trabalho e de ter renda para sustentar seu escritório.

Incentivada pelos seus funcionários, Susan tem um perfil criado no site e vai a três encontros para fazer uma pesquisa para o caso, conhecendo como o site e os encontros funcionam. Além disso, entrevista algumas das mulheres com quem Nick saiu para saber se realmente aconteceram os encontros, como foram e se Nick de alguma forma estava dificultando que os encontros fossem bem. 

Durante essa investigação para montar seu caso, Susan acabou descobrindo os desafios de se encontrar alguém em sites de relacionamento. Há pessoas que não são parecidas com suas fotos de perfil, gerando uma decepção quando vemos pessoalmente. Há também quem parece ser interessante no perfil, mas pessoalmente percebemos outros pontos que desfavorecem a manutenção do interesse no outro, como a conversa não desenvolver bem, o estilo de vida da pessoa ser diferente do nosso ou podem haver algumas manias que a outra pessoa tenha que são difíceis de tolerarmos.

Além disso, nos sites e aplicativos de relacionamento encontramos pessoas com vários objetivos: tem pessoas interessadas apenas em conversar, tem quem queira uma companhia momentânea ou apenas um único encontro, algo casual, e há até mesmo quem esteja por estar, chegando a marcar de encontrar e não apareça. Em contraponto, há quem procure um relacionamento sério, uma companhia interessante para manter contato, mesmo que não queira rotular a relação, ou está em busca de achar o amor de sua vida. Ou seja, há diversas posturas e expectativas ali, reunidas em um único lugar ao alcance de um dedo, e com uma variedade de opções e de informações preliminares maiores do que um ambiente presencial pode oferecer para se conhecer alguém.

Com a questão da pandemia e da necessidade de distanciamento social, a busca por encontrar pessoas nesses locais se tornou mais viável do que encontrar presencialmente em algum lugar. Acaba que a função desses aplicativos se tornou o recurso disponível mais fácil para conhecer gente nova. Contudo, continuamos esbarrando em algumas dificuldades que sempre existiram nessa forma de se conectar com novas pessoas.

Sem termos muitas “referências” sobre com quem estamos conversando, ficamos à mercê da fantasia que criamos sobre a pessoa com quem rolou o match. Será que o match vai virar uma conversa? Será que a conversa vai sair do aplicativo de relacionamento e ir para outra rede social? Será que vale a pena marcar de encontrar pessoalmente? Será que me exponho a algum risco em sair com essa pessoa? Dúvidas que são normais ao se fazer uso desses aplicativos e sites, e geram muitas expectativas, muitas sem condições de serem cumpridas.

Bem, aplicativos e sites de relacionamento são um meio, assim como vários outros que existem para se conhecer alguém. O importante é refletir sobre a questão que é levantada ao se levar o caso de Nick a julgamento, não há como se garantir que vamos achar o amor, não importa qual meio se utilize para conhecer alguém. O mais importante é estar aberto a conhecer, pois pode ser que em um desses aplicativos e sites você encontre a pessoa com quem você quer casar (como existem várias histórias por aí...), mas pode ser que você encontre seu interesse amoroso em outro lugar. 

Além do mais, pode ser que você prefira um auto investimento e não um investimento no outro, optando pela solteirice. Quando se fala em amor, às vezes é mais importante pensar se você quer encontrar alguém ou se você está bem só. Afinal, procurar alguém por dependência emocional é preocupante e pode conduzir a relacionamentos pouco saudáveis. Por isso, é importante desenvolver autoconhecimento para saber escolher o que você quer e que tipo de pessoa você quer ao seu lado, caso decida que quer um relacionamento. 

A jornada de Nick e Susan no filme nos mostra que não, não é possível garantir que uma pessoa vá encontrar o amor. E também nos mostra que os sites e aplicativos de relacionamento apenas reproduzem o que já se existia no mundo físico: haverá encontros bons e encontros ruins; pessoas que não querem nada com a gente; pessoas que vão querer estar com a gente, mas que não nos interessaram; ou que no primeiro encontro já percebemos que tem pensamentos muito diferentes dos nossos. O importante é saber o que se quer e ter paciência nessa busca. Vai que no próximo deslize do dedo não encontramos o que estamos procurando?

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Sheila Francisca Machado reside em Brasília, é psicóloga clínica, especialista em psicologia clínica e especializada em avaliação psicológica, CRP 01/16880. Atende adolescentes e adultos na Clínica de Nutrição e Psicologia - CLINUP. Atua com a abordagem Análise do Comportamento.
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Especial: Cinema, cultura e adolescência

12 de fevereiro de 2021

 


Foto: 10 Coisas que Eu Odeio em Você (Disney/Buena Vista) / Desenrola (Downtown Filmes) / Ela Disse, Ele Disse (Imagem Filmes) / Para Todos os Garotos que Já Amei (Netflix)

Confesso, sempre fui fã de filmes de comédia com protagonistas adolescentes e que tratam de questões da adolescência. Lembro que o filme que me marcou no início da adolescência, e que continua até hoje sendo um dos meus favoritos, é “10 Coisas que eu Odeio em Você” (1999). Durante minha adolescência assistir vários, “Ela é Demais” (1999), “Teenagers - As Apimentadas” (2001), “Meninas Malvadas” (2004), a trilogia de filmes “American Pie” (1999, 2001 e 2003), entre tantos outros. Mas, algo me incomodava: o que eu via em tela não era tão semelhante com o que eu vivia na vida real. A escola Americana não era tão parecida com o que eu vivia na escola brasileira. Estava ali diante dos meus olhos um choque de culturas! As imagens dos filmes americanos criavam algumas expectativas sobre a vida na adolescência que na prática não existiam na vivência brasileira, e não digo tanto pelas situações exageradas que são tecidas para tentar tornar o filme interessante, mas por detalhes cotidianos ali representados que são diferentes no Brasil.

Apenas do choque de cultura, os assuntos tratados ali nos filmes americanos se parecia com os conflitos que eu vivia enquanto adolescente em algum grau, então cumpriam certa função. Não era comum encontrar no cinema brasileiro muitos filmes sobre o assunto, tanto que ainda lembro da primeira vez que assisti “As Melhores Coisas do Mundo” (2010). Já não era adolescente, mas lembro que me fez recordar da minha adolescência e de alguma forma me sentir representada naquela visão de mundo. Senti novamente em um lugar comum ao assistir “Desenrola” (2011). Aqueles adolescentes ali pareciam mais reais para mim. Não sentia esse choque de culturas. Fui emocionada assistir no cinema o filme "Confissões de Adolescente" (2013), pela nostalgia de ver com nova roupagem os personagens que eu via na série de mesmo nome quando eu era mais nova! E assim, fui tendo a oportunidade de, a medida que o cinema nacional expandia seus limites, encontrar filmes que me faziam me sentir representada em relação as vivências da adolescência.

O mundo mudou, a cultura se transformou e a sociedade se desconstruiu. Vemos hoje surgindo uma nova onda de filmes adolescentes, mas agora com o mercado americano e o mercado brasileiro produzindo em ritmo semelhante, em grande parte por conta dos serviços de streaming. De um lado temos “Para Todos os Garotos que já Amei” (2018), “Barraca do Beijo” (2018), “Sierra Burgess é uma Loser” (2018), “Dançarina Imperfeita” (2020), do outro temos “Fala Sério, Mãe!” (2017), “Tudo por um Pop Star” (2018), “Ela Disse, Ele Disse” (2019), “Modo Avião” (2020). E o que será que muda e o que será que permanece o mesmo? O que tem de importante falar sobre esse assunto? Calma que já digo.

A adolescência é uma fase de autodescoberta, o momento em que o sujeito começa a tentar entender e traçar a própria identidade. Uma parte dos atos do adolescente tem como objetivo se auto afirmar e tentar encontrar seu lugar no mundo. Os filmes acabam se tornando ferramentas de referência. Neles muitos jovens buscam encontrar algum personagem para se identificar, as vezes imitam o que veem, e isso de alguma forma influência na vivência das experiências dessa fase. Um ponto em comum que se tem nos filmes, independentemente do país de origem, é as questões tratadas: os conflitos interpessoais, os relacionamentos amorosos, os problemas familiares, as inseguranças, a busca por uma identidade, por se entender e entender o mundo. Não é à toa que até hoje “Clube dos Cinco” (1985) é um filme lembrado e cultuado!

Contudo, a forma que as situações que esses questionamentos acontecem podem variar de cultura para cultura. Temos na cultura americana uma escola dividia em grupos de acordo com a função do aluno na escola, e por mais que os filmes atuais mostrem que esses grupos não são tão caricatos quanto se mostrava nos filmes antigos, ainda vemos o grupo dos atletas, o grupo das líderes de torcida, o grupo dos estudiosos, dos membros da banda, e por aí vai. Na cultura brasileira, por mais que hajam alunos mais populares que outros, os grupos são formados mais por afinidades e/ou por tempo de convivência, e é comum ter uma comunicação entre todos, não sendo considerado estranho pessoas de um grupo conversar ou ajudar pessoas de outro. Um segundo ponto que fica bem clara a diferença é no sistema escolar, em termos de horas passadas na escola, organização de grade horária, anos passados no ensino médio e vestibular.

Dessa forma, lidar com os conflitos é visto diferentemente nas culturas, o que se reflete nas narrativas dos filmes. Por mais que possa ter o apoio das amizades, nos filmes americanos vemos uma cultura do tentar resolver sozinho, de não poder depender muito do demais, a visão de ser individual dentro de um coletivo. Já nos filmes brasileiros vemos uma cultura do "tamo junto", você precisa resolver algo, mas não está sozinho. Todos de alguma forma podem contribuir para chegar na solução do seu problema, família, escola, amigos, ou seja, é a visão do ser social, um ser que compõe um todo que se apoia. Há um coletivo social e o indivíduo faz parte dele.

Sim, independente da cultura tem as questões da competitividade, não se sentir bom o bastante, não saber se está pronto para alguma experiência. É normal muitas vezes não saber o que falar ou como falar, os não ditos, os exagerados e os mal-entendidos. Afinal, ser adolescente é ser cobrado como adulto e tratado como "criança". É tudo ser muito importante, ao mesmo tempo em que nada importa tanto. A vivência da adolescência é a vivência do conflito. Por isso é importante a produção nacional de filmes sobre essa fase/voltados para essa fase. Os filmes nacionais dão possibilidade aos jovens de refletir sobre seu papel no mundo a partir de uma perspectiva cultural e social próxima da sua própria realidade. Enquanto que os filmes internacionais vão fazer isso a partir da visão cultural do país de origem, podendo expandir as visões de mundo de quem os assiste.

O cinema e as mídias visuais têm um papel na construção do sujeito, podendo influenciar em sua visão de mundo e em como lida com os conflitos que encontra pela vida. Ter a oportunidade de ter disponível filmes que retratam a própria cultura podem fazer diferença para aqueles que estão na fase da adolescência. Lembrando que filmes de outras nacionalidades também são bem-vindo, já que permitem conhecer outras culturas, entender como que elas dão espaço para a construção do ser e mostram que há conflitos da juventude que existem em qualquer lugar, a diferença é o olhar que cada cultura tem sobre eles.

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Sheila Francisca Machado reside em Brasília, é psicóloga clínica, especialista em psicologia clínica e especializada em avaliação psicológica, CRP 01/16880. Atende adolescentes e adultos na Clínica de Nutrição e Psicologia - CLINUP. Atua com a abordagem Análise do Comportamento.
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Amor com Data Marcada e o medo de se relacionar

29 de dezembro de 2020

 

Foto: Netflix / Amor Com Data Marcada / Divulgação

Imagine chegar em casa para o natal e todos seus familiares te perguntarem se você ligou para uma pessoa que eles arranjaram para você sair? Ou conhecer uma pessoa e sair alguns dias com ela só para ter com quem passar um feriado? Bem, é assim que conhecemos Sloane e Jackson em “Amor Com Data Marcada” (2020). Sloane está superando um final de relacionamento em que seu ex-namorado a trocou por uma pessoa mais nova. Com isso, sua família tem tentado arranjar um novo pretendente para que ela não fique sozinha para o resto da vida. Sua tia Susan, que também está solteira, tem uma tática e ensina a sobrinha: algo que ela chama de “ferigato”, arranjar um encontro com alguém aleatório só para levar um acompanhante para a datas comemorativas.

Apesar de achar a ideia absurda no começo, ao ir no shopping trocar o presente de natal acaba conhecendo Jackson, que também teve um natal bem diferente do que o esperado e estava lá para devolver o que ganhou. Jackson foi para a casa da família de uma mulher com quem estava no terceiro encontro e, mesmo deixando claro que ainda não tinham um compromisso, ele foi tratado como se já fosse da família, recebendo até um especial de presente de natal. Sloane e Jackson acabam conversando sobre suas noites fracassadas e ela conta a ele sobre a dica de sua tia. Achando a ideia interessante, Jackson combina com ela um encontro de ano novo. Quando se encontram novamente no dia dos namorados, acabam combinando de serem o acompanhante um do outro durante todas as datas comemorativas até mudarem de ideia.

Nesse começo de filme já vemos algumas regras generalizadas na sociedade sobre relacionamento sendo apresentadas: a ideia de que uma pessoa só pode estar feliz e completa se estiver em um relacionamento sério, relacionamentos sérios são um fardo e problemáticos, estar solteiro é algo ruim e relacionamento fixo sendo um sinônimo de sucesso na vida. Não é à toa que atualmente tantas pessoas tem receio de se relacionarem. O namoro hoje tem um status de seriedade tão grande entre as pessoas, passando a ser considerado um compromisso que só podemos assumir depois de conhecer bem outra pessoa, que a ideia de que o namoro é justamente o período em que estamos conhecendo o outro melhor tem se perdido. 

Muitas pessoas têm preferido não “rotular” as relações como forma de se proteger de frustrações ou como forma de negar os próprios sentimentos. E é nesse espírito que vamos acompanhando a jornada de Sloane e Jackson no decorrer do filme. A cada feriado eles se conhecem um pouco melhor, vão desenvolvendo intimidade um com o outro e evitando falar sobre sentimentos por medo do que a relação possa vir a se transformar caso os dois desenvolvam seus sentimentos. No meio tempo, acabam passando algumas dessas datas com a família de cada um, o que por regra social pode dar uma conotação de seriedade a relação.

Enquanto isso, eles acompanham os relacionamentos dos amigos e familiares: um amigo mulherengo de Jackson, que está sempre com uma pessoa diferente; a tia Susan, que evita se envolver dando só um feriado de chance para cada encontro; o irmão mais novo de Sloane, que em poucos meses começou o namoro, noivou e casou a ponto dele e a esposa acharem que talvez foi rápido demais, pois ambos ficaram sem se conhecer muito bem; e a irmã de Sloane que, por conta da rotina com quatro filho, não tem tido mais tempo com o esposo para viver a vida em casal. Essa visão de relação como algo imperfeito só reforça para eles a ideia de que é melhor não se comprometer, mantendo neles a visão de que existe o relacionamento ideal e ele é impossível de ser conquistado.

Aos olhos dos dois, os relacionamentos sérios eram muito complicados, e, entre um drink e outro do envolvimento sem compromisso, a vida parecia leve, pelo menos até começarem a perceber que entre feriados cada um tinha uma vida separada e com chances de se apaixonar por outra pessoa. Não rotular como uma forma de negar a existência da relação estava complicando mais do que facilitando o relacionamento. Discutiam sobre as máscaras que percebiam os outros usando para estarem em uma relação e se viam cansados das normas do que pode ou não pode acontecer nos primeiros encontros por conta do que o par vai achar. Estavam cansados das expectativas e ser o acompanhante do feriado parecia mais simples do que assumir algo sério. Porém, estavam usando um tipo de máscara: uma muralha construída ao redor de si para não permitir ninguém realmente se aproximar.

Pouco importa o nome que se dê: crush, date, affair, caso, casinho, ficante, rolo, flerte, paquera, amigo(a) com benefícios, pretendente, namorico, namoro, ou qualquer outra expressão, o relacionamento é um laço que duas pessoas decidem criar por vontade própria, por quererem estar juntos, e sempre vai começar com a fase do se conhecerem melhor! O importante é não usar máscaras, baixar pelo menos um pouco as defesas, ser sincero e deixar o outro conhecer quem realmente somos e não a imagem que queremos que veja e que não seremos capazes de manter a longo prazo. Precisamos conhecer um ao outro sem a máscara para realmente nos aproximarmos. 

Também temos o direito de estar solteiros e plenos, sem manter vínculo, desde que esteja claro para as pessoas que saímos que não haverá uma próxima vez. Se sentir bem consigo mesmo(a) não tem tanta relação com o ter alguém especial como muitos pensam. Estar bem consigo mesmo(a) é se amar, sermos especiais para nós mesmos, independentemente de haver um outro alguém. A dois ou a sós, ser respeitoso(a) e verdadeiro(a) faz toda a diferença, é a reflexão que temos acompanhando a jornada de Sloane e Jackson.

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Sheila Francisca Machado reside em Brasília, é psicóloga clínica, especialista em psicologia clínica e especializada em avaliação psicológica, CRP 01/16880. Atende adolescentes e adultos na Clínica de Nutrição e Psicologia - CLINUP. Atua com a abordagem Análise do Comportamento.
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Missão Presente de Natal, qual o significado do natal para você?

1 de dezembro de 2020

 

Foto: Netflix / Missão Presente de Natal / Divulgação

Em “Missão Presente de Natal” (2020), Erica Miller trabalha como assistente parlamentar e recebe de sua chefe a missão de ir a uma base militar procurar indicadores que justifiquem fechar a base na semana do Natal. Com isso, acaba desmarcando o Natal com seu pai para ir até Guam, na Micronésia, acompanhar as operações da base em sua Missão Presente de Natal, no qual enviam “presentes” para ilhas próximas que fazem parte da Micronésia. Um dos objetivos da base é justamente o trabalho humanitário, mas a congressista para a qual Erica trabalha está preocupada com os votos que possa perder fechando uma base militar em seu distrito, por isso vê a base de Guam como um local que não lhe rende votos e seria uma boa escolha para fechar no lugar da outra.

Chegando em Guam, Erica é acompanhada pelo capitão Andrew para conhecer a ilha e as operações da base militar. No começo ele tenta afastar Erica dos pontos onde estão se desenrolando as atividades da missão Presente de Natal, mas Erica é mais esperta e começa a perceber pequenos detalhes que a auxilia a chegar no objetivo de verificar a missão. Andrew explica para ela que a operação não gera custos, que são recolhidas doações e feita troca de favores para coletar comida, roupas, brinquedos, livros e outros suprimentos para doar as 56 ilhas atendidas pela missão. Só que Erica só leva a sério após acompanhar Andrew e os outros militares da base, que recebem auxilio dos locais, durante os preparativos para organizar as doações para entrega e angariar fundos financeiros para poder levar a missão adiante.

Acompanhar a missão em andamento, conhecer os militares participantes que doam seu tempo e interagir com os locais e com os locais de uma ilha vizinha, mexeu com os sentimentos de Erica. Há três anos sua mãe faleceu e o natal deixou de ter o mesmo sentido de antes. Evitando ir visitar seu pai e conviver com a madrasta, Erica se esconde focando no trabalho e correndo atrás de conquistar uma promoção. Ir para a ilha era a desculpa que ela precisava para poder adiar ter que encarar que sua mãe faleceu e que seu pai agora já havia casado a cerca de um ano com outra pessoa. Para ela, os natais quando sua mãe era viva tinha outra cor, outra alegria e uma aura especial pelas singularidades que sua mãe tinha.

Enquanto isso, para Andrew o natal também iria ser longe da família, mesmo ele sentindo falta de estar perto deles. Para ele, era uma época em que ele tinha a oportunidade de devolver a ajuda que ele e sua família tiveram quando precisaram, assim passando adiante a bondade e a esperança com itens que parecem simples e singelos, mas que para os moradores das ilhas eram especiais e tudo que eles precisavam no momento. Ao mesmo tempo, Andrew aproveitava para tornar o Natal dos militares que precisariam ficar ali longe de suas famílias um momento com um significado especial, dando um ar familiar e cheio de gratidão. O objetivo de Andrew era fazer o natal de todos feliz.

A época do natal pode ser difícil para várias pessoas. Por ser um evento familiar em nossa cultura, muitos ficam tristes por estarem só, longe de suas famílias, por conta de um ente querido que já faleceu ou mesmo por ter uma relação conflituosa com familiares próximos. Há aqueles que inevitavelmente começam a refletir sobre o ano estar chegando ao fim e não ter realizado suas resoluções para o ano corrente, ter passado por situações difíceis de lidar ou passaram por alguma perda importante durante o ano. Alguns tem alguma condição limitante física e/ou convivem com alguma questão psicológica, como ansiedade e depressão, e tem dificuldade de entender toda a atmosfera que alguns criam em torno da data, que aos olhos de alguns parece supervalorizada e não passa de um dia qualquer. Fora os que precisam continuar trabalhando nesta época por exercerem trabalhos que não podem ser totalmente interrompidos, precisando fazer plantões.

Cada um tem sua forma de ver e viver essa época. Muitos procuram dar um sentido, como oportunidade de buscar se reconciliar com alguém, praticar atos de caridade e de auxílio aos necessitados, momento de ser grato pelo que conquistou ou pelo bem que recebeu, e até coisas simples como aproveitar a oportunidade como uma “desculpa” para reunir com toda a família. O mundo ainda vive acelerado, imediatista, preocupado com produção, e esquece que há momentos que precisamos de uma pausa, de nos despir dos julgamentos que fazemos a nós mesmos e de buscar exercitar a empatia e o amor próprio. As festas de fim de ano por vezes se tornam um convite para desacelerar e voltar a atenção para o que sentimos falta de aproveitar.

O Natal não precisa ser perfeito, você tem o direito de vive-lo da forma que lhe for mais confortável! Aproveita a época conforme for possível. Se puder, faça uma pausa, descanse um pouco e aproveite o dia. Se não der por qualquer motivo, respire, pegue leve consigo mesmo(a) e tente ressignificar a data dentro de suas possibilidades para que seja menos sofrível ou mais agradável. Erica precisou voar 36h até Guam para entender o que estava esquecido e que lhe fazia falta para poder ter uma vida mais equilibrada e leve. Então, tome o seu tempo, vá no seu ritmo e tente aproveitar o momento!

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Sheila Francisca Machado reside em Brasília, é psicóloga clínica, especialista em psicologia clínica e especializada em avaliação psicológica, CRP 01/16880. Atende adolescentes e adultos na Clínica de Nutrição e Psicologia - CLINUP. Atua com a abordagem Análise do Comportamento.
Contato: sheila_machado_@hotmail.com
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Instagram@empqnasdoses
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A Mentira – propagação de informações e impactos na saúde mental

29 de setembro de 2020

Foto: Sony Pictures / A Mentira / Divulgação

 Já teve algum momento que você decidiu contar uma pequena mentira? Que a princípio parecia inocente, mas que causou muito mais problemas do que trouxe soluções? Esse é o enredo do filme “A Mentira” (2010). Para evitar um final de semana na casa de sua amiga, Olive, uma garota de 17 anos, decide inventar um encontro como desculpa para não ir. O problema é que Rhiannon, sua amiga, queria saber sobre tudo o que aconteceu no encontro quando se viram na segunda-feira na escola. Assim, o encontro de uma noite virou uma mentira sobre uma aventura romântica de um final de semana contada no banheiro da escola, onde a líder religiosa extremista dos alunos da escola, Marianne, ouve tudo. Pronto, é aí que os boatos e fofocas começaram a se espalhar pela escola.

Com a informação circulando de boca em boca e a ajuda das redes sociais, em questões de minutos toda a escola estava sabendo sobre o encontro de Olive e de como ela perdeu a virgindade. O problema só aumentava a cada pessoa que ficava sabendo. A história ia se modificando, novos detalhes iam aparecendo e a reputação de Olive na escola se transformando totalmente. No desespero e na pressão de contar a amiga uma história impressionante sobre seu encontro, Olive saiu do anonimato na escola para ser conhecida como a garota promíscua. Começou a ganhar atenção e a ter a visibilidade que nunca teve antes. Como muitas pessoas começaram a falar com ela, passou a sentir que tivesse finalmente se enturmando e conquistado um lugar ao qual pertencesse na escola.

Por conta de sua nova reputação, o grupo de jovens religiosos extremistas começaram a pegar no pé de Olive e ela acabou ficando em detenção escolar por dar uma má resposta a uma deles no meio de uma aula. A atividade da detenção era limpar a escola, junto com Brandon, outro aluno que também estava em detenção. Enquanto conversavam, ela conta a verdade a ele e ele acaba pedindo ajuda a ela para ter uma reputação melhor na escola. Olive acaba aceitando e eles criam uma situação para a escola acreditar que eles tiveram uma relação sexual. A partir daí, Olive perdeu o pouco controle que ainda tinha de sua reputação e várias pessoas vieram pedir para fingirem que ficaram com ela para melhorar suas reputações ou mentiram ter ficado com ela para acobertar segredos sem seu consentimento.

A reputação de Olive já não dependia mais do que ela fazia, falava ou deixava de falar, as fofocas e boatos construíram uma imagem falsa na escola sobre ela. A forma que viu de lidar com isso foi assumir a imagem que criaram dela, mudar suas roupas e forma de agir, para se tornar visualmente aquilo que os outros acreditavam que ela fosse. Ela se perdeu de si, sem ter com quem se abrir, com quem se aconselhar e sem amizades por perto, já que os boatos afastaram todos dela, com poucas exceções. Os boatos eram baseados em estereótipos, muitos reforçados por certos assuntos serem vistos como tabus, assuntos proibidos, que não devem ser falados de forma aberta, mas que são conversados as escondidas, como se a informação sobre eles fossem segredos.

O problema de se tratar assuntos como tabus está em fingir que eles não existem, que não são importantes e retirar o direito de falar abertamente, assim perdendo-se o espaço de diálogo e orientação adequada sobre esses temas. Por mais que pareça conveniente não falar sobre certos assuntos, seja por medo, por incômodo, por vergonha, por falta de conhecimento ou por julgamentos morais, entre outros, não ter com quem falar, alguém para acolher o sofrimento, negar o direito de escuta e de receber uma orientação adequada sobre assuntos como mentira, sexo, sexualidade, desesperança, sentir-se não pertencer, autoimagem, bullying, abusos, violências de todos os tipos, ou qualquer outro tema que seja tratado como um tabu, é negar ao sujeito a oportunidade de elaborar e encontrar uma forma saudável de se lidar com a própria vida e com a dificuldade que possa estar passando.

Fingir que algo não existe é uma forma ineficiente de lidar com esses assuntos. Sim, para cada idade, para cada fase da vida, para cada nível de maturidade há como abordar esses assuntos com cuidado e de acordo com o entendimento de mundo que o indivíduo já tenha. Se não nos vemos capazes de orientar, podemos buscar auxilio e orientação em quem seja capaz. Se somos quem precisa de orientação, podemos buscar em lugares que passe uma informação segura e confiável. O que não se pode é fechar os olhos e os ouvidos para situações que afetam a saúde mental de todos. Por isso é importante se conhecer e ter fontes confiáveis de informações. Ou poderemos estar repassando e alimentando mentiras, que parecem inocentes, mas que podem afetar a vida de alguém mais do que imaginamos. Se somos o alvo da mentira, temos várias consequências emocionais que podem marcar uma vida e que afetam seriamente nossa saúde mental.

Ser o criador de uma mentira ou ser o propagador dela traz consequências a todos os envolvidos na situação. O que Olive só foi perceber quando já tinha feito muita bagunça em sua própria vida e que só conseguiu sair quando decidiu aceitar a ajuda que seus pais e seu crush tentaram lhe oferecer desde o início. Suportar o julgamento dos outros foi um fardo muito mais pesado do que ela imaginava. Então que tal nós buscarmos em nossas vidas compreender mais, julgar menos e cultivar um diálogo aberto e franco, ao invés de colocar os problemas escondidos debaixo do tapete, esperando que eles se resolvam sozinhos? Talvez assim, muitas mentiras nem cheguem a existir. Informação é importante desde que seja verdadeira, procuremos propagar apenas informações confiáveis.

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Sheila Francisca Machado reside em Brasília, é psicóloga clínica, especialista em psicologia clínica e especializada em avaliação psicológica, CRP 01/16880. Atende adolescentes e adultos na Clínica de Nutrição e Psicologia - CLINUP. Atua com a abordagem Análise do Comportamento.
Contato: sheila_machado_@hotmail.com
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De Repente 30 (2004)

15 de setembro de 2020

Foto: Columbia Pictures do Brasil / De Repente 30 / Divulgação

A vida é feita de fases, todos sabemos. Todas as fases trazem alegrias, aprendizados e sofrimentos. No ciclo da vida, as fases variam de pessoa para pessoa, e a adolescência é uma dessas fases que ninguém consegue escapar. Todos, exceto Jenna Rink que conseguiu a proeza de pular dos 13 para os 30 anos. Sortuda ela? Seria o sonho de todos adolescente, em um piscar de olhos, ter 30 anos, o emprego dos sonhos e um namorado (a) super descolado e popular? 

A adolescência é um período extremamente delicado para toda a família. Para o adolescente, as mudanças hormonais, corporais, emocionais e sociais que a puberdade proporciona são inexoráveis e não optativas. Para os pais, um desafio que demanda aprender como desenvolver um relacionamento com uma pessoa completamente diferente daquela criança que estavam acostumados a lidar. 

Neste quesito, o caso de Jenna não é diferente, ela é uma adolescente descontente com sua idade, frustrada por não ser tão popular quanto suas colegas de escola e com sua vida amorosa. Depois do desastre de seu 13º aniversário, ela faz um pedido que milagrosamente se realiza. Quando ela acorda, 17 anos se passaram instantaneamente - apenas para ela, os demais personagens vivenciaram este período normalmente. 

O filme é uma comédia romântica - quase um conto de fadas - e proporciona algumas reflexões. Por não desejar perder o tom de comédia, deixa de retratar as reais consequências de não vivenciar uma fase tão marcada pelas constantes lutas psicológicas inerentes à formação da identidade. É nesta fase que ele deve fazer uma série de seleções cada vez mais específicas de compromissos pessoais, ocupacionais, sexuais e ideológicos que ajudarão a se constituir enquanto adulto; a fundamentar o sentido da vida que levará a encontrar seu lugar no mundo.  

E é isso que Jenna nos mostra, ao agir como uma criança em diversas situações, não conseguir socializar com os adultos, meio onde ninguém a entende e que as pessoas olham para ela como se estivesse totalmente deslocada. Pois, a perda da fase a transformou em uma pessoa fútil, desagradável e cruel, e que busca desesperadamente o contato com crianças e com seu melhor amigo de infância na tentativa de ser incluída, e assim, encontrar sentido no mundo “dos adultos”. 

O filme é divertidíssimo e eu recomendo para todas as idades, ele consegue, através de sua narrativa alegórica, transmitir uma mensagem indireta, por meio de comparação ou analogia. Porém, não me furto de imaginar que, se Jenna aparecesse no mundo de hoje, o “Gap” geracional não permitiria tamanho entrosamento, gerando, talvez uma sensação maior de exclusão. Afinal, há 17 anos atrás, quem saberia mexer nos smartphones que temos hoje? Parte tão importante da geração Z? 

Nossas experiências nos ajudam a aprender como lidar com frustração, com rejeição, e entre outras situações, nos possibilita o autoconhecimento e a não correr o risco de se tornar um adulto alheio a si mesmo.  

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Cinthia Regina Moura Rebouças, psicóloga, CRP 23/001197, atende em consultório particular, adolescentes e adultos, com ênfase psicanalítica, em Palmas-TO. Possui MBA em Gestão de Pessoas (FGV), experiência como Docente do Curso de Gestão de Recursos Humanos, trabalha na interseção entre psicanálise e Trabalho. Tem experiência em trabalho com grupos, Avaliação Psicológica, na área Organizacional e na Condução de processos de Orientação Profissional.
Acompanhe seu trabalho em:
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Os riscos do “sim” indiscriminado em Sim Senhor

25 de agosto de 2020

 

Foto: Warner Bros. / Sim Senhor / Divulgação


É comum ouvirmos pessoas dizendo que têm dificuldade de dizer “não” quando alguém lhe pede algo. No filme “Sim Senhor” (2008), o problema de Carl é o contrário, ele constantemente diz “não” para tudo e todos, no trabalho, para os amigos e até mesmo para estranhos no meio da rua. Carl está divorciado a 3 anos e vive sua vida de forma solitária, evitando eventos sociais, assim se afastando de seus amigos. Seu trabalho é em um banco, na área de empréstimo, sendo que lá também é pouco popular por ser visto como um funcionário com postura negativa, que não traz o lucro que a empresa gostaria.

Certo dia, em sua pausa do almoço, encontra com um conhecido, Nick, na entrada do banco que lhe diz que sua vida mudou após começar a dizer “sim” para tudo e o convida para uma palestra motivacional de Terrence Bundly chamada “Sim! é o novo Não!”. Carl acaba aceitando o convite e na reunião é convencido por Terrence e todos presentes de que deve dizer “sim” para tudo. Ao sair da reunião, seus primeiros “sim”s são ditos por Nick, o que o leva a dar carona para um morador de rua.

Por conta dessa carona, Carl acaba com problemas: sem gasolina, sem bateria no celular e sem dinheiro no meio da estrada. Na busca por voltar para casa, tem a oportunidade de conhecer Alisson, uma mulher descontraída e gentil, que acaba se oferecendo para ajudar a levar gasolina para seu carro. Dizer “sim” para a Alisson acabou o motivando a seguir dizendo “sim” para todos os pedidos que lhe fossem feitos por qualquer um, sem distinção e sem uma avaliação das consequências. As poucas vezes que tentou dizer “não” acabou se sabotando, o que ocasionou sua mudança de resposta de “não” para “sim”.

Dizer “sim” para todos e tudo ajudou Carl a se abrir novamente para as situações e oportunidades da vida. Aprendeu novas habilidades, ajudou pessoas desconhecidas em momentos improváveis, conheceu pessoas novas, melhorou a relação com pessoas já conhecidas, modificou sua imagem no trabalho e permitiu que Alisson entrasse em sua vida. Quanto mais frutos positivos colhia do “sim”, mas ignorava os problemas que dizer “sim” de forma indiscriminada estava lhe trazendo.

O “sim” indiscriminado o colocou em situações de risco das mais diversas. Seu melhor amigo fez pedidos absurdos na expectativa dele refletir, mas sem sucesso. Outros amigos e conhecidos começaram a tirar vantagem de sua permissividade, sendo que um deles chegou a pedir para morar com ele. Descobrir que Carl vivia a filosofia do “sim” para tudo fez com que Alisson contestasse os sentimentos de Carl e todo o relacionamento que construíram juntos. Ora, se Carl diz “sim” para tudo, que garantia ela teria de que seus sentimentos eram verdadeiros? O que viveram poderia ser apenas por obrigação do dizer “sim”?

Tanto o “sim”, quanto o “não” indiscriminados trazem problemas. No caso do “não” muito do que poderia ser gratificante e prazeroso negamos a nós mesmos. Enquanto no “sim” podemos passar por apertos e situações desagradáveis de forma desnecessária, por vezes apenas para agradar aos outros, por medo de chatear as pessoas com quem convivemos. Porém, é impossível agradar a todos. Dizer “sim” para os outros quando queremos dizer “não” é dizer “não” para as nossas vontades e necessidades! Tanto o “sim” quanto o “não” são decisões a serem pensadas, levando em conta as consequências de cada resposta e como nos sentiremos com isso.

É possível se reinventar, autodescobrir, abrir para o mundo e buscar o que se quer sem precisar dizer “sim” para tudo. O “sim” e o “não” ditos na medida certa, refletindo com mais cuidado sobre qual dizer em situações mais complexas, são fontes de saúde e bem-estar, o que Carl acabou aprendendo durante sua jornada! Uma parte de seus sofrimentos poderiam não ter existido ao dizer “não”, assim como as realizações que conseguiu poderiam não ter existido sem o “sim”. É tudo uma questão de auto avaliação e análise da situação que se está vivendo para tomarmos a decisão que acreditamos ser capaz de trazer-nos mais benefícios que prejuízos. Ou seja, é importante aprender a avaliar quando é o momento do “sim” e quanto é o do “não”. Tudo tem uma medida certa! Cabe a cada um encontrar a sua! 

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Sheila Francisca Machado reside em Brasília, é psicóloga clínica, especialista em psicologia clínica e especializada em avaliação psicológica, CRP 01/16880. Atende adolescentes e adultos na Clínica de Nutrição e Psicologia - CLINUP. Atua com a abordagem Análise do Comportamento.
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Enrolados e a prisão de um relacionamento tóxico

22 de fevereiro de 2020

Foto: Walt Disney / Enrolados / Divulgação
Enrolados (2010) é a adaptação da Disney do clássico Rapunzel e, assim como o clássico, pode ser pensada por diversos ângulos. Mas neste artigo gostaria de voltar a atenção para o relacionamento de mãe e filha da mama Gothel e da Rapunzel. Mama Gothel criou Rapunzel desde bebê e a guardou em uma torre, segundo ela para mantê-la sã e salva dos perigos do mundo. Quando Rapunzel mostrava interesse em sair da torre protetora, a mama listava o quanto o mundo era assustador e em seguida já mostrava a jovem que ela poderia protegê-la, que ficando ali não teria perigo. A mama também se vitimizava quanto ao cuidado que ela teve para com a filha, dizendo que ser abandonada e morrer sozinha deveria ser o retorno merecido por tanta dedicação e carinho. Gothel também desvalorizava a Rapunzel psiquicamente, socialmente e fisicamente, com adjetivos depreciativos como "tonta", "desleixada" e "gorducha".  Por fim, ela dizia a Rapunzel que a amava e que ela não devia esquecer, mas sim obedecer, pois, "sua mãe sabe mais".

Essa superproteção da mama Gothel é também sinal de um relacionamento lesivo. Existe um desequilíbrio na relação das personagens. Há uma tentativa da mama de exercer poder sobre a Rapunzel e esse poder é velado pelo discurso de cuidado materno. Entretanto, o real interesse da mama em manter a Rapunzel trancada na torre é drenar o poder dos seus cabelos e continuar se mantendo bela e jovem. Ou seja, uma busca por benefício próprio as custas da filha. 

Esse tipo de maternidade não é exclusividade da ficção e é nomeada em algumas abordagens da psicologia como narcísica, em outras como tóxica, só para citar os rótulos mais populares. Se libertar de uma maternidade tóxica não é fácil e é muito doloroso. É possível pensar sobre o tempo que Rapunzel ficou naquela torre até ter coragem para sair, foram anos desejando e esperando a "vida começar", até que ela decidiu fugir. O relacionamento disfuncional entre as personagens é crucial na decisão de fuga de Rapunzel. Inclusive, antes de sair da torre ela confessa, com certo pesar, que gostaria que a mãe a deixasse ir, mostrando que existe por parte da personagem desejo de que a mãe consentisse sua saída.

Ser objeto de amor, ou interesse, de alguém como a mama Gothel é muito difícil e sofrido, pois nesse tipo de relacionamento o outro é depreciado, humilhado, infantilizado para mantê-lo preso no relacionamento. Esse sofrimento pode ser tão intenso e incapacitante que é possível a vítima se manter refém dessa relação e estagnada na vida, vivendo a sombra de seu algoz. No caso, Rapunzel não aguentava mais esperar "a vida começar" e decidiu fugir, mas mama Gothel a encontra e tenta aprisiona-la novamente. Contudo, quanto mais tempo a moça ficava livre, mais ela gostava de estar fora da torre e não desejava voltar para aquela vida de confinamento. 

Diante do impasse de interesses entre mãe e filha, mama Gothel decide matar aquele que estava desviando a filha. Na tentativa de salvar José, Rapunzel troca sua vida pela dele, se a mama Gothel a deixasse curar José ela nunca mais tentaria fugir de novo. Entretanto, na hora que Rapunzel vai curar José, o rapaz corta seus cabelos e toda a beleza e juventude que mama Gothel havia conseguido pela magia das longas madeixas lhe é retirada. 

A mágica dos cabelos de Rapunzel só existe na ficção, mas o corte de seu cabelo simboliza a ruptura dela com a mãe. Se essa história não fosse um conto de fadas, Rapunzel só conseguiria ter relacionamentos, além do de mãe e filha, se o relacionamento dela e da mãe sofresse cortes, limites. A quantidade e a profundidade desses cortes dependem muito da resiliência dos envolvidos, pois é muito comum que haja retaliação por parte de quem está sofrendo limitação do poder. Dessa forma, para se manter em um relacionamento com alguém como a mama Gothel e conseguir ter uma vida é imprescindível ser resiliente e ter rede de apoio, inclusive de um profissional capacitado, que auxiliará no processo de autoconhecimento, o qual é fundamental para que a vítima consiga separar o que é dela das crenças depreciativas usadas pelo algoz para mantê-la atada a ele, e também para conseguir lidar com as retaliações consequentes dos limites colocados.

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Alyne Farias Moreira, brasiliense do quadradinho, mas refugiada entre a beira do Araguaia e a sombra da Serra Azul. Mãe da Cora Linda, psicóloga, CRP 18/02963, equoterapeuta, professora e palestrante. Apaixonada pelo desenvolvimento humano e por psicanálise. 
Contato: (66) 99224-9686
Instagram: @vir_a_ser_Alyne

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Melhor é impossível, um retrato de alguém que sofre com TOC

17 de fevereiro de 2020

Foto: TriStar Pictures / Melhor é Impossível / Divulgação

Alguma vez você já disse ou já ouviu alguém dizer algo do tipo "eu tenho TOC porque tenho mania de limpeza, gosto de tudo limpo"? Pois bem, essa é uma visão simplista de senso comum sobre o Transtorno Obsessivo Compulsivo! TOC é outra coisa...

Quem sabe bem disso é Melvin Udall, uma pessoa ranzinza e preconceituosa, que logo nos primeiros momentos do filme “Melhor é Impossível” (1997) já começa a nos mostrar seus comportamentos compulsivos. Depois de se irritar com o cachorro do vizinho, Verdell, entra em seu apartamento e tranca e destranca a porta para cumprir com seu ritual de trancar a porta. Após, vai ao banheiro lavar as mãos em água quente com um sabonete que ele precisa tirar da embalagem para usar e após o uso esse sabonete é descartado na lixeira. No armário do banheiro, várias barras lacradas de sabonete nos mostram que não é um fato isolado o que estávamos observando. Antes da noite acabar, seu vizinho Simon ainda vai tirar satisfação com ele sobre o cachorro, momento esse que temos a oportunidade de perceber bem os comportamentos agressivos de Melvin na hora de se comunicar com outros, assim como seu sofrimento com aquilo que não tem como controlar.

Seus hábitos compulsivos não param por aí. No dia seguinte a discussão com Simon, acompanhamos Melvin indo comer no lugar de sempre, contando os passos que dá, olhando para o chão para não pisar nas linhas da calçada e evitando qualquer tipo de contato com outras pessoas na rua. Ao chegar no local, fica esperando sua mesa habitual desocupar. Apenas uma garçonete, Carol, tem paciência para atendê-lo, mas a falta de habilidade de comunicação de Melvin torna a relação dos dois complicada, gerando conflitos.

Porém a vida é cheia de situações que não temos controle e Melvin parece estar sendo obrigado a enfrentar esse fato quando o apartamento de Simon é assaltado e ele fica internado no hospital. Melvin acaba sendo obrigado a cuidar de Verdell a contragosto, só que aos poucos vai se afeiçoando ao cachorro, ao mesmo tempo que vai ensinado, sem querer, alguns de seus comportamentos compulsivos a ele.

Depois de algumas semanas, Simon sai do hospital e Verdell volta para seu dono. No mesmo dia Melvin vai ao seu psiquiatra e não consegue ser atendido por não ter horário marcado. De lá se dirige a lanchonete e Carol não foi trabalhar. Nesses momentos e em outros do filme podemos perceber o sofrimento que Melvin tem quando sua rotina é quebrada e quando as coisas não saem como o planejado. No seu pensamento obsessivo por manter o planejado, por estar no controle, o dia só será bom se as coisas ocorrerem como sempre, dentro de sua rotina e se ele seguir seus rituais compulsivos. O que o leva a atitudes rudes e intrusivas para recuperar a rotina que lhe diminuía o sofrimento psíquico, afastando quem tenta se aproximar dele por conta de mal-entendidos.

Por estar tão focado em procurar meios de diminuir sua ansiedade, Melvin acaba agindo de forma a ignorar os sentimentos dos outros a sua volta, causando sofrimento aos outros ao mesmo tempo em que aumenta seu próprio sofrimento. Analisando mais a fundo Melvin, encontramos um homem com seus traumas, que criou uma série de regras para evitar sofrer. Por repetir constantemente suas regras, acabou isolado, sem desenvolver uma boa comunicação com os outros e tendo dificuldade de perceber o outro com quem convive. Se abrir para Simon e Carol é um movimento difícil, pois Melvin está acostumado a afastar as pessoas e não a aproximá-las. Mas é justamente o encontro com essas pessoas que traz a Melvin a oportunidades de ressignificar sua vida.

Cada um tem suas dificuldades e no dia a dia acabamos dando novos significados para aquilo que não entendemos muito bem, por vezes julgando antes mesmo de conhecer. Mas é justamente ao tentarmos entender o sofrimento do outro que temos a oportunidade de ressignificar o nosso próprio sofrimento. E quem sabe, pode ser a oportunidade de encontrar nosso lugar no mundo! Assim, entender aquele que sofre abre novos caminhos para entendermos a nós mesmos!

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Sheila Francisca Machado reside em Brasília, é psicóloga clínica, especialista em psicologia clínica e especializada em avaliação psicológica, CRP 01/16880. Atende adolescentes e adultos na Clínica de Nutrição e Psicologia - CLINUP. Atua com a abordagem Análise do Comportamento.
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A jornada por autoestima de Penélope

3 de dezembro de 2019

Foto: Paris Filmes / Penélope (2006) / Divulgação
No filme Penélope (2006), uma jovem rica vive sem sair de casa por conta de uma maldição familiar lançada sobre seus antepassados, a qual fez com que ela nascesse com nariz e orelhas de porco. A maldição foi lançada por uma senhora que perdeu a filha por conta da rejeição da rica família Wilhern em deixar um de seus filhos casar com uma moça pobre. A forma da família Wilhern quebrar a maldição seria a aceitação de Penélope por um dos seus, o que fez com que a mãe de Penélope Wilhern buscasse um jovem rico que aceitasse se casar com ela.

Logo no começo do filme, acompanhamos o sofrimento de Penélope por viver trancada em casa sem sair para que sua aparência fosse escondida, já que sua mãe tinha dificuldade em aceitar que sua filha era diferente. Para que a maldição se quebrasse e a filha passasse a ter a aparência de uma jovem normal, sua mãe contratou uma agencia de casamentos para procurar pretendentes ricos para a jovem. Um dos pretendentes que sua mãe trouxe ficou tão horrorizado com a aparência de Penélope que foi direto a polícia denunciar o que viu, chegando a exagerar a aparência da moça ao descrevê-la. 

Penélope já estava cansada de procurar pretendentes, por achar que nenhum aceitaria sua aparência, enquanto tudo que ela queria era sair de casa e viver uma vida normal. Até que, na tentativa de provar que não estava louco, seu pretendente e um repórter contrataram um rapaz para se fingir de pretendente e tirar uma foto da moça. O encontro entre os dois dá início a uma série de mudança na vida de ambos.

O sentimento de Penélope é um sentimento real para muitas pessoas. Quando se fala em autoestima, muitos fatores podem afetar como uma pessoa se vê, como a aparência, a capacidade cognitiva, suas habilidades para esportes, o quão bem uma pessoa acha que deveria se comunicar, entre outros. O sentimento de não ser bom o bastante e por isso precisar se fechar do mundo é a mansão em que muitos se trancam, perdendo assim sua liberdade.

Penélope estava trancada por sua família e por si mesma, esperando por um outro que a estimasse e abrisse a ela as portas para o mundo. Mas será que sua vida não teria sido diferente se ela e sua família tivessem outra visão sobre o que é importante? Precisamos aprender a olhar para nossos pontos positivos e valorizá-los. Uma olhada no espelho de forma bem detalhada pode nos mostrar mais do que a aparência inicial que temos de nós mesmos.

A autoestima é saber olhar para nossos pontos positivos e negativos como nossos aliados. Os positivos são aqueles que precisamos manter, às vezes aprimorar. Em contrapartida, os negativos são pontos a melhorar, que podem ser usados para direcionarmos nossas energias e planejamentos, sendo que algumas vezes o melhor que podemos fazer é aprender a aceitar nossa limitação e viver em paz com ela. Não temos que ser bons em tudo, mas sempre tem alguma coisa em que somos bons. Ao aceitar nossas falhas começamos a promover a mudança na nossa vida.

Estar atento a quem nós somos, observando cada momento em que vivemos para entender nossas ações, pode nos mostrar que talvez não estejamos focando no que realmente importa. A autoestima é construída durante nossa história de vida e depende de uma série de experiências que temos ao longo dela. Mas justamente por ser construída também pode ser modificada e reconstruída.

Às vezes precisamos ultrapassar o limite do portão da nossa casa interior para nos libertar da ideia engessada que temos de quem somos, renovando assim nossa autopercepção. O que vai quebrar uma maldição, pode ser um detalhe que passou despercebido, que o diga Penélope que só percebeu isso quando olhou com outros olhos para a maldição que via no espelho.

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Sheila Francisca Machado reside em Brasília, é psicóloga clínica, especialista em psicologia clínica e especializada em avaliação psicológica, CRP 01/16880. Atende adolescentes e adultos na Clínica de Nutrição e Psicologia - CLINUP. Atua com a abordagem Análise do Comportamento.
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