Mostrando postagens com marcador Fantasia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Fantasia. Mostrar todas as postagens

O Mapa das Pequenas Coisas Perfeitas – você está vivendo o tempo presente?

16 de julho de 2021

 

Foto: Amazon Prime Video / O Mapa das Pequenas Coisas Perfeitas / Divulgação.

O que você faria se pudesse reviver o mesmo dia mais de uma vez? No filme “O Mapa das Pequenas Coisas Perfeitas” (2021), Mark e Margaret estão presos em uma anomalia temporal e revivendo o mesmo dia em loop várias vezes. No começo ambos acreditam estarem revivendo o dia sozinhos, até que em um acontecimento em um dos dias Mark percebe que talvez ele não seja o único, o que leva a procurar por Margaret. Juntos começam a tentar entender o que está acontecendo e a procurar as pequenas coisas perfeitas escondidas na cidade durante aquele dia.

Desde que Mark percebeu que estava revivendo o mesmo dia, começou a agir de forma despreocupada e a tentar evitar pequenas situações do dia para tirar proveito próprio. O fato que o levou a conhecer Margaret foi justamente sua tentativa de conquistar uma garota na piscina de um clube. A cada dia que ele revivia, testava e treinava formas diferentes de conquistar a mesma garota naquele momento do dia.

Enquanto isso, Margaret estava tentando aprender a dirigir enquanto buscava por um cachorro perdido na vizinhança. Aprender a dirigir sozinha não lhe aprecia inadequado, já que se batesse em um carro no outro dia haveria tudo voltado a onde estava já que o tempo se repetiria. A sensação de responsabilidade sobre as próprias ações havia sumido por acreditar que a meia noite o dia inteiro iria se desfazer e seria como se nada tivesse realmente acontecido.

O encontro entre os dois levou a criar um novo objetivo, passar os dias repetidos procurando as pequenas coisas perfeitas que aconteceram naquele dia na cidade inteira. Como teriam todo o tempo do mundo, poderiam buscar na cidade inteira e ir apresentando esses momentos um para o outro. Se sentiam, assim, donos do tempo.

O que Mark e Margaret não estavam percebendo é que ao invés de aproveitar o próprio dia, estavam apenas observando o dia passar sem realmente vive-lo. E isso não é um problema vivido apenas por eles. Na sociedade em que vivemos atualmente, onde tudo tem que ser cada dia mais imediato, onde nada pode esperar e tudo é para ontem, as pequenas coisas perfeitas dos nossos dias têm sido engolidas pela necessidade de ser sempre produtivo, estar um passo à frente e viver o dia de amanhã. Ou seja, a sociedade se perdeu sem entender bem como realmente funciona a passagem do tempo, atribuindo expectativas por vezes irrealistas.

O problema é que não temos como viver o dia de ontem, visto que compõe nosso passado, e também não podemos viver o dia de amanhã, visto que ainda não aconteceu. O único momento em que temos como fazer alguma coisa é o hoje, o agora, o presente. Daí fica a reflexão, será que realmente estamos vivendo o dia presente? Bem, se pensarmos na quantidade de pessoas ansiosas e depressivas que vemos hoje, a resposta para maioria seria não, não estamos vivendo o presente.

Com o passado podemos aprender e tirar lições para a vida. Em relação ao futuro nos resta apenas planejar e fazer no momento atual a base necessária para o futuro acontecer. No momento que o futuro se tornar o presente é que teremos o que fazer em relação a ele. Porém, tanto o passado quanto o futuro podem ser assustadores, no passado temos os momentos ruins e os traumas, no futuro temos as incertezas e o encontro com as finitudes da vida, já que nenhum momento é eterno.

Enquanto Mark revivia seu dia acabou aprendendo que “tempo é aquilo que passa e não volta”. O dia estava o convidado a entender o que aconteceu no passado, viver seu presente e encarar seu futuro. Para Margaret não era diferente, o que diferenciava os dois era quais os desafios estavam precisando enfrentar no momento. Procurando as pequenas coisas perfeitas achavam que estavam aproveitando o presente, quando na verdade estavam fugindo daquilo que temiam no futuro, assistindo a vida dos outros como meros expectadores.

O que restava a Mark e Margaret era chegar ao entendimento de que as vezes procuramos fora aquilo que só podemos achar dentro de nós mesmos. Viver o presente é muito mais do que aquilo que nos aconteceu no passado ou que irá acontecer no futuro. O presente é cheio de pequenas coisas perfeitas e de pequenas coisas quebradas. Uns dias serão melhores que os outros e nem sempre o que a gente quer para o futuro vai poder ser como gostaríamos. Viver o presente é se dispor a aproveitas e lidar com todas as pequenas coisas da vida. E não precisa ser só, se precisar de ajuda sempre pode-se recorrer a sua rede de apoio e a profissionais capacitados, quando for o caso.

____________________


Sheila Francisca Machado reside em Brasília, é psicóloga clínica, especialista em psicologia clínica e especializada em avaliação psicológica, CRP 01/16880. Atende adolescentes e adultos na Clínica de Nutrição e Psicologia - CLINUP. Atua com a abordagem Análise do Comportamento.
Contato: sheila_machado_@hotmail.com
Clínica Clinupclinup.blogspot.com
Instagram@empqnasdoses
0

Dumbo: uma reflexão sobre loucura e maternidade

29 de janeiro de 2021

 


Foto: Disney/BuenaVista / Dumbo / Divulgação.

Dumbo (1941) é uma animação infantil clássica que ganhou uma releitura em live action em 2019 que extrapola a obra original e possibilita reflexão sobre diversos temas contemporâneos. A loucura é um tema que está presente tanto na animação quanto no live action, e entra em cena quando a Sra. Jumbo é rotulada de "elefante louco", após tentar proteger seu filhote de atos violentos que envolviam chacota e zombaria por ele ser um elefante de orelhas muito grandes, o que não é esperado para essa espécie. 

Os atos violentos contra o filhotinho de elefante foram gratuitos e a reação materna instintiva. O rótulo de louca é uma forma de deslegitimar o sentimento da mãe, desqualificar sua voz e seus atos, e ainda eximir o agressor da responsabilidade da agressão. 

A Sra. Jumbo é uma elefante com um filhote bebê, o que permite uma identificação com a mulher puérpera, que embala seu bebê recém-nascido para que ele possa sobreviver ao mundo. O puerpério na modernidade é visto como um momento delicado e difícil, e esse rótulo tem muito a ver com o instinto da mulher que se sobressai a diversas demandas sociais que, ao longo do tempo, foram desenhando a mulher dentro de um papel social que diverge em alguns aspectos do que o biológico dita. 

Dentro do papel social de mulher espera-se que ela performe feminilidade, gentileza, doçura, obediência e submissão. Durante o puerpério, a mulher se volta instintivamente para o filho, muitas vezes deixando de lado o papel que a sociedade espera que ela represente como mulher, e não é raro elas agirem com todos os seus recursos a fim de protegerem seus bebês. A relevância desse fato é tanta que mantém o dito popular da “mãe leoa”. 

Algumas atitudes maternas protetoras são vistas pela sociedade como maternais, cuidadosas e dignas de exaltação, o que inclusive alimenta a sociedade de mercado que cada vez mais lança novos produtos a fim de proteger os bebês. Entretanto, quando a mulher limita visitas, proíbe alguns tipos de brincadeiras, piadas ou apelidos é comum ser vista socialmente como exagerada e, caso essas ações sejam mais acaloradas, não é raro o rótulo ser o de louca. Junto com o rótulo vem a desqualificação de suas vontades e da sua voz, e os "sãos" continuam fazendo o que acreditam ser certo sem olhar ou escutar essa mãe. Caso ela faça muito barulho, utiliza-se de algum "sossega-leão" como forma de "acalmar" uma mãe que virou leoa, ou como dizem "louca". 

Talvez o leitor esteja se perguntando o que há de errado com visitas ou brincadeiras, mas nem todas as visitas entendem a dinâmica de uma casa com recém-nascido, ou mesmo a rotina desse bebê. Às vezes chegam sem avisar, para visitas longas e invadindo a privacidade do neném e da mãe. E aqui vale ressaltar que o bebê e a criança também são desprovidos de voz em nossa cultura. Seu discurso é desqualificado e ignorado socialmente desde as primeiras horas de vida. O bebê que ainda não aprendeu a falar tem no choro sua grande ferramenta de comunicação, mas essa não é tolerada e é silenciada com chupeta e mamadeiras para que fiquem bem quietinhos, principalmente para que outras pessoas além da mãe consigam ficar com ele nos braços por mais tempo. Tanto na animação quanto no live action Dumbo clama pela mãe, mas só é ouvido por um ratinho, na animação, e por duas crianças órfãs, no live action, ou seja, por seres que como ele não possuem voz na sociedade. 

Com relação às piadas e brincadeiras comumente feitas, tem desde a clássica "cara de joelho", passando por jogos que envolvem apertar, beliscar, morder partes do corpo recém-nascido ou ameaçar fazê-lo, até piadas envolvendo características individuais da criança ou família. Em resumo, situações indelicadas e violentas que nenhuma mãe quer que seu filho viva. No caso da animação, a Sra. Jumbo tem o nome do seu bebê mudado contra a sua vontade por conta de sua aparência. Pode parecer uma situação exclusiva do cinema, mas, infelizmente, não é. Muitas crianças ganham apelidos de terceiros que acabam se tornando uma espécie de "nome social". Há também as que os pais na hora de fazer o registro escolhem um nome diferente do desejado pela mãe. 

Na história de Dumbo, uma consequência do rótulo da loucura é a Sra. Jumbo ter sido trancada em uma jaula, e ser mantida afastada de seus iguais e também de seu filhote. Essa exclusão social e cárcere é uma atitude manicomial, que apesar de muitas lutas no Brasil e no mundo para que ela seja extinta ainda é presente em nossa sociedade, tanto no formato de instituições de internação, quanto por atitudes sociais que reforçam padrões manicomiais. Em contextos onde se usa o rótulo de "louca" para desqualificação materna, podemos ter a vivência de alienação parental, tentativa de afastar o filho da mãe, pedidos de revisão de guarda, e discursos para desacreditar a mãe da sua capacidade cuidadora. 

O rótulo da loucura desqualifica o discurso e torna o falante desprovido de ouvinte, salvo alguns profissionais qualificados que podem traduzir o "sem sentido". Dessa forma, o protesto é inaudível, e, por vezes, mesmo com profissionais intermediando, aquele que é rotulado continua sem voz, desprovido de seus direitos inatos de fala, sentimento, choro e expressão. 

Ao mesmo tempo que o rótulo da loucura desqualifica o "louco", ele empodera quem o rotula e quem tem sua tutela, e, se estamos falando de puérpera, outro também é empoderado com relação ao seu filho. Quem lucra com o rótulo de “mãe louca”? Aqueles que querem a guarda do seu filho. Na história do Dumbo foi o circo que lucrou financeiramente com as habilidades do bebê. E fora da tela? Quem lucra ao rotular uma mãe de louca?  

Talvez o leitor deva estar se perguntando se eu estou ignorando condições de saúde mental e sofrimento intenso que por vezes são rotuladas como loucura. Não, reconheço essas condições e sei que não é raro a vivência de algumas delas no período puerperal, mas rotulá-las como loucas não agrega, pelo contrário, destitui direitos humanos fundamentais. Saúde mental necessita de acolhimento, empatia, cuidado especializado e muito amor. E as "loucuras" criadas para silenciar vítimas de violência essas precisam de olhar crítico e mudança social. É preciso parar de responsabilizar vítimas e proteger agressores.

____________________

Alyne Farias Moreira, brasiliense do quadradinho, mas refugiada entre a beira do Araguaia e a sombra da Serra Azul. Mãe da Cora Linda, psicóloga, CRP 18/02963, equoterapeuta, professora e palestrante. Apaixonada pelo desenvolvimento humano e por psicanálise.  
Contato: (66) 99224-9686
Instagram@vir_a_ser_Alyne

0

Os Fantasmas de Scrooge (2009)

22 de dezembro de 2020

 

Foto: Disney / Os Fantasmas de Scrooge / Divulgação

Consideremos que as pessoas que passaram por nossas vidas têm alguma influência em nossa visão de mundo: testemunhas de nossa história, personagens de nossas lembranças, motivos de afetos e aversões, pessoas que marcaram a nossa vida de alguma forma por excessos ou faltas, afinal, somos seres sociais e nossas experiências, de certa forma, marcam a percepção que temos de nós, da nossa história e do mundo. 

Na vida de Ebenezer Scrooge não era diferente. Ele levava sua vida baseado nas representações mentais que tinha das pessoas e do mundo, ideias essas que eram em sua maioria, negativas. Então, não poderia ser diferente que, para ele, o mundo fosse um lugar perigoso, injusto, cheio de pessoas ruins e aproveitadoras, refletindo essa visão de mundo também em sua relação com o dinheiro. Era avarento ao extremo e considerava o pecúlio mais importante do que qualquer coisa ou experiência. 

Era difícil para Scrooge até mesmo confiar nas pessoas e tê-las próximas de si, mesmo os parentes não eram vistos como dignos de compartilhar de sua intimidade. Assim, buscando racionalizar e monetizar todas as relações como se elas fossem apenas trocas comerciais em que ele deveria evitar ser explorado, objetivo número 1 das pessoas em relação a ele, segundo sua visão. 

Algumas pessoas são assim, buscam uma economia emocional evitando gastar energia, até mesmo pensamentos em relação a desejos, poupando todos os recursos a fim de escapar de uma futura escassez ou por medo de precisar depender de outra pessoa. Evitando encarregar-se de algo que não vá render emocionalmente mais do que investido, o que na maioria das relações humanas acontece em algum momento por não ser algo que possamos controlar.  

Fazer de tudo para não perder tempo também era algo essencial para Scrooge, ele não tinha tempo para distrações ou para divertimentos. Também não acreditava em paixão ou na necessidade do Natal, tida como uma data de tolos, irracional e sem motivo de existir. 

Um dia, as vésperas de Natal, Scrooge estava a caminho de casa, aonde morava totalmente só, quando recebe a visita de seu antigo sócio, falecido há 7 anos. Homem de mente materialista, pessoa prática e lógica que ele é nem mesmo acreditava em fantasmas. Para ele, não é possível confiar em seus sentidos, pois eles são, como de todas pessoas, falhos. É possível crê apenas naquilo que é fruto da racionalidade. 

Porém, seu ex-sócio consegue ser bem convincente, a ponto de Scrooge levar a sério o que ele diz e até reparar nas correntes que ele carrega questionando o ex-sócio sobre o motivo delas. A explicação do sócio é que elas são consequências da vida dedicada apenas para coisas materiais e aos negócios, da vida desperdiçada. Mostrando a Scrooge que o motivo de sua visita é evitar que o destino pós-morte de Scrooge seja igual ao dele, mas, para isso, seria visitado por 3 fantasmas: o do Natal passado, o Natal presente e os Natal vindouro. 

Conforme advertido pelo sócio, a primeira visita é do "fantasma do natal passado", que o leva em uma viagem de volta a sua infância, aonde encontram um menino rejeitado pelos outros e deixado pela família para passar o natal sozinho na escola, durante vários anos. Nesta experiência, relembra de sua relação com a irmã e de seu antigo amor.

Quando recebe a segunda visita, mostra-se aberto a experiência que lhe impuseram a visita do "fantasma do natal presente". Este o leva para ver o mundo dos homens pela perspectiva celeste, possibilitando uma reflexão de seus atos no presente em relação a seu sobrinho e a seu empregado.

Mesmo diante da presença do "fantasma do natal vindouro", Ebenezer tenta assumir o controle dizendo que já entendeu que está recebendo uma lição, então prefere receber logo, pois não tem tempo a perder, colocando-se de forma passiva em relação as reflexões de sua vida, como se o fantasma fosse o único responsável por fazê-lo refletir sobre algo que ele mesmo não tinha necessidade. Porém, ao presenciar o seu fim, Scrooge promete ao espírito que caso tenha tempo de vida para praticar ações que levem a outro desfecho, ele será uma pessoa melhor.  

Este conto de natal nos possibilita pensar sobre nossa visão de mundo e a perceber que a vida é uma oportunidade diante de nós. Scrooge teve uma segunda chance de recuperar o tempo e de se permitir ser generoso com os que precisam, a ajudar o seu empregado e a construir relações significativas. Através da visita dos 3 fantasmas, refletiu sobre sua história de vida e percebeu que, baseado em suas mágoas, temores e visão de mundo, tinha tornado sua própria vida miserável fechando-se para coisas que tinham significado e prazer para ele.  

____________________




Cinthia Regina Moura Rebouças, psicóloga, CRP 23/001197, atende em consultório particular, adolescentes e adultos, com ênfase psicanalítica, em Palmas-TO. Possui MBA em Gestão de Pessoas (FGV), experiência como Docente do Curso de Gestão de Recursos Humanos, trabalha na interseção entre psicanálise e Trabalho. Tem experiência em trabalho com grupos, Avaliação Psicológica, na área Organizacional e na Condução de processos de Orientação Profissional.
Acompanhe seu trabalho em:
Instagram: @empqnasdoses
0

Viva – A Vida é uma Festa, a cultura e as tradições familiares em pauta

24 de novembro de 2020

 

Foto: Disney/Pixar / Buena Vista / Viva - A Vida é Uma Festa / Divulgação

Em “Viva – A Vida é Uma Festa” (2017), Miguel é um garoto de 12 anos que sonha em ser músico como o famoso Ernesto De La Cruz, mas sua família tem a tradição de fazer sapatos e se manter afastada da música. A música é proibida em sua família, pois o seu tataravô deixou a família pela música, largando a esposa e a filha pequena Inês em sua cidade natal, o que obrigou sua tataravó Amélia a empreender no ramo de sapatos para sustentar sua família. 

Fabricar sapatos é o destino e o orgulho da família Rivera. Entretanto, Miguel não quer esse destino, ele quer ir atrás do seu sonho. Repudiar a música virou uma cultura dentro da família Rivera, os membros não cantam, não tocam, não escutam e nem se aproximam de música. Aquele que é "tentado" pela música é "protegido" pelos demais. Mantendo-se, assim, um ciclo de ódio e preconceito que passa de geração em geração de forma acrítica e que acaba trazendo sofrimento e limitações a seus membros.

Dentro de uma família são ensinados e reforçados valores, crenças, e até sentimentos, pré-conceitos e mágoas. A todos esses ensinamentos passados de geração a geração dentro de uma mesma família chamamos de cultura familiar. A cultura familiar é importante para se manter as tradições, histórias e até pessoas vivas nas memórias dos familiares. Contudo, alguns elementos que essa cultura carrega podem não ser saudáveis e, consequentemente, adoecer a família, limitar os indivíduos, e se tornar um peso ou mesmo um castigo: "Tem horas que me sinto castigado por uma coisa que aconteceu antes mesmo deu nascer" é com essa frase que Miguel começa a narrar a história do filme.

Miguel ama música e criou formas de conseguir ouvi-la de vez em quando, se escondendo e fugindo de sua avó Elena, filha de sua bisavó Inês, mesmo que ás vezes fosse pego quebrando a tradição familiar de renegar a música. Revoltado em ter que seguir essa tradição até os dias atuais, Miguel decide correr atrás de seus sonhos e participar do festival de talentos que irá ocorrer na noite do Dia dos Mortos, o dia em que sua família, assim como todas as famílias do México, está preparando as oferendas para receberem a visita dos espíritos de seus antepassados. Porém, acaba se metendo em algumas confusões dentro de casa por conta disso.

Fã do grande músico Ernesto De La Cruz, após quebrar acidentalmente um porta-retratos com a foto de sua tataravó, Miguel passa a ter uma pista de quem poderia ser seu tataravô, já que não se falava seu nome e a foto que estava em suas mãos estava com a cabeça de seu tataravô rasgada. A foto o faz descobrir que o violão de seu tataravô era o mesmo instrumento do seu maior ídolo. Miguel passa a crer que De La Cruz é seu tataravô e isso lhe dá forças para ir atrás de seu sonho.

Na hora do concurso a ausência de um violão o impede de participar. Com isso, ele decide pegar emprestado o violão no túmulo do De La Cruz, já que sendo seu tataravô não se importaria com esse empréstimo, pensou o menino. Entretanto, o furto leva ele com seu fiel amigo Dante, um cãozinho de rua, para o mundo dos mortos, na condição de menino vivo, pelo menos se conseguir sair de lá antes que passe a pertencer ao lugar. Lá Miguel encontra com seus antepassados, sua família já falecida.

Para retornar com vida ao mundo dos vivos Miguel precisava ser abençoado por um familiar morto com uma pétala de calêndula, a flor que conecta os dois mundos. Amélia, tataravó de Miguel, aceita abençoa-lo, mas apenas com a condição dele manter a tradição familiar de não se aproximar da música, mesmo que isso custe a felicidade ou a vida do garoto. Miguel prefere arriscar a vida e se aventurar no mundo dos mortos atrás de um familiar que abençoe a ele e ao seu sonho, do que retornar ao mundo dos vivos preso a um destino que ele não deseja. Assim, Miguel decide fugir de seus antepassados e ir atrás de De La Cruz para conseguir sua benção e voltar para casa.

Miguel não era capaz de entender o porquê dessa tradição continuar sendo passada adiante. Os não ditos e segredos relativos a tradição familiar de renegar a música com base em ressentimentos passados estavam afastando ele de sua família. A própria avó Elena estava mais preocupada em não chatear sua mãe Inês, com isso apenas repetindo o legado deixado por Amélia sobre o pretexto de que a música afastou a família e os sapatos uniram, então a música passou a ser proibida. Elena só queria manter a família unida e acreditava que a medida que o neto Miguel entrasse no mundo dos sapatos iria se conformar e entender a importância da vida familiar. Então, não estava disposta a ouvir o que Miguel tinha a dizer, ela não precisava entender, e sim ele que tinha que entender a tradição familiar. Ambos, Miguel e Elena, estavam fechados ao diálogo.

Tanto no mundo dos vivos quanto no mundo dos mortos, a aventura de Miguel passa a ser solo por não querer seguir a tradição familiar, assim perdendo um importante ponto de apoio: a família. A família tem influência na vida de cada um, ou nos passando o que vamos dar continuidade ou nos oferecendo ciclos que desejamos romper. Romper com a família leva a perda de uma parte da rede de apoio. Mas será que não seria possível romper com uma tradição familiar que limita o sujeito em sua felicidade e no seu processo de vir a ser sem precisar perder a família? Sim, é possível, quando as portas para o diálogo e para o entendimento mútuo estão abertas.

Ter uma visão crítica das tradições familiares nos auxilia a avaliar qual a importância de segui-las e quando é possível e necessário rompe-las. Tanto o manter quanto o romper é fácil quando há um apoio familiar, pessoas com quem podemos contar e que também precisamos acolher. Aceitar e entender a história passada da família é uma forma de acolher aqueles que estão próximos de nós e nos permite tentar mostrar nosso ponto de vista. Para Miguel foi necessário demonstrar para a sua família que ele compreendia a importância de ser família para que tivesse uma oportunidade de mostrar o seu lado e mostrar a avó Inês e aos Rivera que alguns ciclos existem para serem quebrados.

____________________


Alyne Farias Moreira, brasiliense do quadradinho, mas refugiada entre a beira do Araguaia e a sombra da Serra Azul. Mãe da Cora Linda, psicóloga, CRP 18/02963, equoterapeuta, professora e palestrante. Apaixonada pelo desenvolvimento humano e por psicanálise. 
Contato: (66) 99224-9686
Instagram: @vir_a_ser_Alyne

Sheila Francisca Machado reside em Brasília, é psicóloga clínica, especialista em psicologia clínica e especializada em avaliação psicológica, CRP 01/16880. Atende adolescentes e adultos na Clínica de Nutrição e Psicologia - CLINUP. Atua com a abordagem Análise do Comportamento.
Contato: sheila_machado_@hotmail.com
Clínica Clinupclinup.blogspot.com
Instagram@empqnasdoses
0

O Tempo Com Você (Tenki no Ko) – O tempo, a esperança e a busca pela felicidade

27 de outubro de 2020

 

Foto: Diamond Films / O Tempo Com Você / Dilvulgação

Em “Tenki no Ko” (2019), ao fugir de casa e ir para Tóquio, Hodaka Morishima, um garoto ingênuo e impulsivo, espera começar a vida que sempre quis ter, longe de seus pais. A dura realidade logo lhe joga para fora de sua ilusão nos primeiros momentos vividos na cidade. Viver em Tóquio é mais caro que ele imaginava e um emprego para um rapaz de 16 anos que não está estudando é fora de cogitação. Mas sua vida em Tóquio toma outros rumos quando ele conhece Keisuke Suga, Natsumi Suga e Hina Amano, as pessoas que de alguma forma estenderam as mãos e deram a ele uma oportunidade.

Como se já não bastasse ter que se adaptar a mudança que é sair de uma cidade pequena do interior e ir para uma cidade grande, uma capital movimentada, ainda mais sem apoio de alguém conhecido, Hodaka ainda enfrenta isso durante o verão mais chuvoso já visto em Tóquio em anos. Depois de alguns dias tentando se virar, chegou a precisar dormir na rua e em estabelecimentos 24h. Em um estabelecimento que ficou um dia até o amanhecer, Hina estava trabalhando e decide lhe dar comida, já que ele aparenta passar fome. O gesto de Hina acaba incentivando Hodaka a ligar para Keisuke, o homem que o ajudou a não cair do barco na viagem até Tóquio. Keisuke lhe oferece um emprego e coloca sua sobrinha Natsumi para ensiná-lo o trabalho, que é basicamente escrever notícias de entretenimento sobre lendas urbanas.

Esses pequenos gestos começam a dar ânimo para Hodaka, que quer a todo custo conseguir se virar na nova cidade. Ele vai se habituando e acaba encontrando novamente com Hina e a ajuda a sair de uma confusão que ela se meteu por precisar de um emprego que lhe desse mais dinheiro do que o trabalho na lanchonete. Os dois foram conversando e se conhecendo melhor. Para alegrá-lo, ela conta sua história sobre ter ganhado a habilidade de fazer a chuva passar, concidentemente algo parecido com a lenda urbana que estava investigando sobre as Meninas Sol.

Ver o sol após Hina fazer uma oração aos céus mudou o humor de Hodaka, o deixou mais alegre e juntou os dois para buscarem uma forma dela ganhar dinheiro com essa habilidade. Tanto Hodaka quanto Hina começaram a se abrir para o mundo e a se descobrirem ao levar esperança àqueles que contratavam os serviços da Menina 100% Sol. Conheceram pessoas diferentes, cada uma com suas histórias e com suas esperanças ligadas ao dia ensolarado. O sol naqueles dias cheios de chuva tinha um significado especial para cada um dos beneficiados com as orações de Hina. E Hodaka não ficou de fora. Ver o sol, ver o sorriso no rosto de quem esperava pelo dia ensolarado, também o despertava para a esperança. Mas, nem só de esperança ele vivia, já que tinha arranjado confusões por não pensar nas consequências de seus atos.

Os atos impensados de Hodaka colocaram o jovem rapaz em situações de risco dos mais diversos. Riscos esses que só percebeu após alguém falar ou ao sofrer com os resultados de suas ações. Não precisaria ter passado por parte do sofrimento que vivenciou se tivesse mais cautela ou pensasse mais antes de agir. Sua impulsividade dificultou que tomasse decisões melhor planejadas e o tornou prisioneiro das consequências de suas ações. Por exemplo, ao invés de fugir de casa poderia ter negociado com os pais estudar em outra cidade, ou mesmo esperado formar no ensino médio para tentar faculdade em outra região que não a sua. Dessa forma, não teria passado fome, frio e dormido na rua. Tudo tem seu tempo, mas a impulsividade de Hodaka não o deixou esperar para fazer uma mudança mais tranquila. Ele acreditava que sua felicidade estava em outro lugar que não sua cidade e queria essa felicidade de imediato, não queria esperar. Por pressa, preferiu viver a mudança com as contrariedades de um temporal.

Tanto Hodaka quanto Hina tinham problemas a resolver. Apesar das dificuldades passadas pelos dois, crescia neles a esperança de um dia melhor. Pequenas alegrias do dia a dia podem mudar uma vida se dermos atenção a elas. Essas pequenas alegrias muitas vezes passam despercebidas para aqueles que não se observam, que não observam o que acontece a sua volta. A felicidade e a esperança são muito valorizadas ao redor do mundo, por diversas pessoas, por diversas crenças, mas poucos são aqueles que param para refletir sobre o que é a esperança e o que é a felicidade para si. Ambas têm seus significados únicos, não sendo possível impor um significado único e geral a todos. Sem contar que são momentâneas, ou seja, tem um tempo de determinado de duração. Não tem como se ter felicidade o tempo todo, o que existe são as oportunidades de momentos felizes. Por outro lado, a esperança passa quando é atingido o que se queria ou quando alguma dificuldade nos tira a esperança.

No final de um dia, seja chuvoso ou de sol, o que valorizamos é o que nos dar ou nos tirar a esperança. Porém, para identificar isso precisamos desenvolver a habilidade de nos observar, de entender o que queremos, o que gostamos, aquilo que buscamos, quem somos. A auto-observação é uma habilidade muito importante para desenvolvermos o autoconhecimento. Sem autoconhecimento dificilmente sabemos valorizar os vários pequenos momentos de felicidade que vivemos durante a vida. Sem nos conhecermos também fica difícil conhecer o outro e entendê-lo. É necessário se conhecer melhor para fazer escolhas melhores, para saber quando pedir ajuda e quando se tem condições de estender a mão ao outro. Afinal, o que nos traz esperança e felicidade pode não ser a mesma coisa que para o outro. Algo que na vivência mútua Hodaka e Hina puderam entender: para uns a felicidade e a esperança estão no céu ensolarado, enquanto que para outros estão aguardando nos momentos e encontros que podemos ter nos dias chuvosos.

____________________

Sheila Francisca Machado reside em Brasília, é psicóloga clínica, especialista em psicologia clínica e especializada em avaliação psicológica, CRP 01/16880. Atende adolescentes e adultos na Clínica de Nutrição e Psicologia - CLINUP. Atua com a abordagem Análise do Comportamento.
Contato: sheila_machado_@hotmail.com
Clínica Clinupclinup.blogspot.com
Instagram@empqnasdoses
0

Olhos de Gato, um filme sobre fugir de si

11 de agosto de 2020


Foto: Netflix / Olhos de Gato / Divulgação

Você já teve vontade se ser outra pessoa? Ou mesmo se tornar outro ser? Em Olhos de Gato (2020), Miyo Sasaki, apelidada pelos colegas de Muge, é uma garota de 16 anos que mora com o pai e a madrasta. Após seu pai começar a morar com sua nova esposa, a mãe de Miyo a procura para convidá-la a morarem juntas. Mas Miyo ainda guarda ressentimentos da mãe ter a deixado com o pai quando ela ainda era criança. Sua mãe faz esse convite em um dia que saem para aproveitar um festival. Se sentindo pressionada com o convite, Miyo se afasta da mãe e da multidão chegando em uma área vazia do templo com uma barraca de máscaras que parece abandonada, mas que está funcionando com um gato gigante como vendedor. O convite feito pelo vendedor felino é para ela comprar uma máscara e se transformar em uma gata.

Dividir a vida entre ser humana e ser gata a princípio lhe parece divertido. Como gata ela tem a oportunidade de passar tempo com Kento Hinode, o rapaz de sua sala por quem é apaixonada, mas como Muge não consegue se aproximar dele, pois seu jeito espalhafatoso, desajeitado e que chama a atenção o incomoda. Kento é um rapaz reservado, que sofre pressão em casa para atingir as expectativas da mãe, enquanto tudo que gostaria era de seguir os passos profissionais do avô. Com isso, constantemente engolia o que sentia sem compartilha com ninguém, exceto Tarô, a versão gata de Miyo.

Miyo também estava escondendo seus sentimentos. Ainda estava sofrendo com a separação dos pais e o abandono da mãe. Estava tentando aceitar o novo relacionamento do pai, não tinha nada contra a madrasta, mas não gostava da sensação dela estar ocupando o espaço que sua mãe abriu mão por não se sentir boa o bastante para ocupar. Forçava um sorriso e engolia seus sentimentos, para tentar conviver bem com todos e disfarçar sua tristeza. O que lhe trazia alegria era os momentos em que tentava chamar atenção de Kento na escola como humana, e o carinho que recebia de Kento depois das aulas como gata.

Ser gata lhe permitia fugir da sua realidade, lhe dava habilidades que humanos não tem e lhe trazia a alegria de receber o carinho de Kento, já que como humana ele a evitava. As dificuldades começaram a aparecer quando começou a agir como a gata em momentos em que era a humana. Sua cabeça começou a confundir as duas vidas, o que a levou a não conseguir mais administrar ser uma só. 

Certo dia em que chegou ao limite do estresse acabou falando muito do que estava engasgado de uma forma agressiva para seu pai e sua madrasta. Isso a encheu de sentimento de culpa e, por fim, chegou à conclusão de que queria ser a gata, o que para o vendedor de máscaras era o que ele precisava para poder vender sua máscara e sua vida humana para um gato que quisesse se tornar humano.

Ser apenas a gata lhe tirou do espaço que ocupava, preocupou sua família e amigos, assim aumentando o sentimento de culpa. Ver outra Miyo, diferente dela, ocupando seu espaço no mundo a deixou chateada. Apenas querer ser humana novamente não seria o suficiente, ela teria que ir atrás do vendedor de máscaras para conseguir seu rosto e sua vida de volta. Mas para conseguir sua vida de volta ela teria que voltar a acreditar que ser humana era menos sofrida do que ser gata e aprender a administrar o ressentimento, a culpa e o sentimento de não ser boa o bastante.

Muitas pessoas em alguma fase da vida se questionam sobre ser outra pessoa, alguém novo e diferente, e esquece tudo que precisa ser abandonado para que isso aconteça. Não percebem que os problemas que tem sendo si mesmo(a) teria do mesmo jeito ao ser outra pessoa, pois aquilo que não conseguimos resolver, que não sabemos administrar, é porque depende de tempo para poder solucionar ou do desenvolvimento de uma nova habilidade. Ser outra pessoa com a cabeça que temos nada mais é que correr o risco de cometer os mesmos erros por não termos o que é preciso para consertá-los. Mas, ora, se é algo que depende de tempo ou de aprender uma nova habilidade é possível ser resolvido, é possível fazer a mudança, é possível ser uma nova versão de si! 

O medo de não ser suficiente, não ser bom o bastante, de ser incapaz de ocupar uma posição na família, na escola ou no trabalho, pode paralisar nossas ações, mas só pode ser vencido se tentarmos! A culpa por não atender expectativas, nossas ou dos outros, precisa ser repensada, podemos ser nós mesmos e ainda sim ter nosso lugar e aquilo que buscamos nas relações! O ressentimento pode dar lugar ao perdão aos outros e ao auto perdão para conseguirmos ter a paz de sermos quem somos! Viver nossa própria vida pode ser um grande desafio, mas é a nossa maior oportunidade, como percebeu Miyo na sua busca por voltar a ser humana e ter seu lugar no mundo devolvido e reconstruído, se permitindo dar uma nova chance a si e as pessoas que se importam com ela.

____________________

Sheila Francisca Machado reside em Brasília, é psicóloga clínica, especialista em psicologia clínica e especializada em avaliação psicológica, CRP 01/16880. Atende adolescentes e adultos na Clínica de Nutrição e Psicologia - CLINUP. Atua com a abordagem Análise do Comportamento.
Contato: sheila_machado_@hotmail.com
Clínica Clinupclinup.blogspot.com
Instagram@empqnasdoses
0

Hotel Transilvânia 2, pensando sobre a relação netos e avós

28 de julho de 2020


Foto: Sony Pictures / Hotel Transilvânia 2 / Divulgação

Em Hotel Transilvânia 2 (2015), Conde Drácula vê sua família ampliando. Sua filha Mavis se casa com o humano Jonathan e com isso vem a chegada do neto Dennis, aumentando a família vampiresca. Drácula fica empolgado com a ideia da chegada do netinho, dizendo estar feliz com o que quer que ele seja, vampiro, humano ou até unicórnio. O nascimento de Dennis já o enche de alegria, assim como a expectativa para que suas presas apareçam para que ele seja um vampiro, mas pode ser que elas não apareçam e Dennis seja um humano.

Apesar de Drácula ter aceitado um genro humano, ele tem muita resistência em aceitar tudo relacionado a humanos. Ele está feliz que a família está crescendo, mas quer um vampirinho, alguém que continue seu legado, esquecendo-se que Dennis pertence a duas famílias, e que a história de seu neto carregará o legado de ambas. Sendo assim, Drácula fica na expectativa das presinhas nascerem, afinal em sua concepção, seu neto será como ele e todos os seus antepassados vampirescos. É apenas uma questão de aguardar e curtir o crescimento do neto.

As primeiras palavras de Dennis? “Blá, blá, blá”! Quem diria que a mania do avô seria as primeiras palavras do neto? Mas isso não deixa Drácula tão feliz, porque ele não fala isso o tempo todo, imagina! Coisa da cabeça dos outros... O importante para o avô é checar se as presas do neto já apareceram. A expectativa do Drácula em ter um neto vampiro o afasta do neto real e limita o relacionamento entre eles, enquanto Dennis lê essa expectativa, que não consegue atingir, como um defeito próprio, ele, Dennis não é “legal”.

Chegando perto dos cinco anos, as presas de Dennis ainda não saíram. Drácula torce para que ele seja apenas um “presinha presa”, ou do contrário pode ser que o convívio diário com o neto seja interrompido, pois Mavis acha melhor o filho conviver mais com humanos, já que se Dennis não tem presas deve ser porque é humano. As expectativas de Drácula o afastam de Mavis, que tem medo do filho sofrer por não as atingir. Para o avô aceitar a possibilidade de seu neto ser humano é perder a filha e o neto ao mesmo tempo, com eles se mudando e indo morar em outro lugar. Por outro lado, Mavis cogita a hipótese de afastar avô e neto pelo medo que ela tem da intolerância do pai ao que Dennis tem que é diferente do avô. Já Denis lê essa situação como sendo culpa sua, pois se ele fosse legal, seu avô ficaria feliz e ele não precisaria se mudar. E isso o faz sofrer.

Enquanto isso, Drácula sofre se questionando como vai ser caso eles se mudem. Como ele vai poder ensinar para o neto as músicas de ninar que ele conhece? As brincadeiras que ele fazia quando criança e que brincou com a filha? As tradições de ser um monstro? Para Drácula, seu neto merece ter a infância que ele teve e por isso decide pedir ajuda ao genro para ter um tempo a sós com o neto, para poder levar o neto para conhecer os lugares em que ele e os amigos viveram seus dias de assombração, dias esses tão passados a ponto dos próprios amigos não saberem mais ser tão assustadores como nas "antigas".

Drácula quer mostrar ao neto o que é ser monstro de verdade, mas sua visão de ser monstro é ultrapassada, não encaixa mais na realidade atual. Os monstros vivem em paz com os humanos, nem ele é o monstro que costumava ser! Ele precisava entender que os tempos são outros. Enquanto que, para Dennis, a aventura com o avô era uma diversão, tudo era brincadeira, ser monstro é divertido e comer bolo! Dennis confia no avô e se diverte na aventura que ele o leva, aprendendo com suas histórias e se divertindo com os cuidados que recebe.

Para ambos, o convívio entre avô e neto tinha uma série de benefícios. Era a oportunidade de Drácula aceitar os humanos de coração e romper com algumas tradições. Para Dennis era a oportunidade de conhecer as tradições, ter afeto e carinho. Uma relação em que os dois lucram e que nenhum queria perder, sentimento este marcado fortemente no filme no momento em que Drácula realmente aceita Dennis, apesar dele não corresponder às suas expectativas. A aceitação do avô permitiu ao neto se tornar quem ele era de verdade, sem a pressão da necessidade de atender às expectativas. Quantas pessoas são limitadas no seu desenvolvimento por serem oprimidas pelas expectativas de outros, principalmente figuras de referência?

Assim, o filme nos mostra o quanto é importante a convivência entre avós e netos, das crianças com os idosos, da criação desse vínculo familiar que muito tem a acrescentar no desenvolvimento da criança e na adaptação do idoso as mudanças da vida. O afeto que ambos podem compartilhar é precioso e marca a vida de cada um de forma singular. As histórias vividas juntas ou compartilhadas ao serem contadas constroem laços, assim fortalecendo a noção de família, passando as tradições familiares e criando novas. Sendo importante lembrar que o respeito genuíno entre as ambas as famílias, assim como às individualidades da criança, é fundamental para o desenvolvimento saudável. Convívio é um direito de avós e netos, mas é preciso que os adultos administrem suas expectativas, para que a criança tenha a oportunidade de se sentir amada e apta a ser quem verdadeiramente é, carregando o legado de suas famílias sem o peso e a opressão das expectativas.

O dano causado pela opressão proveniente das expectativas de pessoas de referência é muito sério e pode gerar cicatrizes que a pessoa carrega até a idade adulta. Como no caso de Drácula que, mesmo adulto, ainda tenta atender as expectativas do pai, mas que, por medo de que a intolerância dele venha destruir sua família, prefere se afastar de Vlad, deixando-o na fantasia de que o filho corresponde a suas expectativas. E podemos observar essa história se repetindo quando Dennis, mesmo atingindo a expectativa do avô, busca sua aprovação.

As famílias crescem, cada novo membro agrega coisas novas. Um neto carrega ao mesmo tempo o legado de duas famílias, além de suas próprias individualidades. Viver em família é uma oportunidade de desenvolvimento e amor para todos. Entretanto, se faltar respeito, pode-se gerar um ciclo de intolerância que atravessa gerações e afasta famílias. Portanto, é importante repensar as relações familiares para que se busque um ambiente saudável a todos que compõe a família.

____________________

Alyne Farias Moreira, brasiliense do quadradinho, mas refugiada entre a beira do Araguaia e a sombra da Serra Azul. Mãe da Cora Linda, psicóloga, CRP 18/02963, equoterapeuta, professora e palestrante. Apaixonada pelo desenvolvimento humano e por psicanálise.  
Contato: (66) 99224-9686
Instagram: @vir_a_ser_Alyne

Sheila Francisca Machado reside em Brasília, é psicóloga clínica, especialista em psicologia clínica e especializada em avaliação psicológica, CRP 01/16880. Atende adolescentes e adultos na Clínica de Nutrição e Psicologia - CLINUP. Atua com a abordagem Análise do Comportamento.
Contato: sheila_machado_@hotmail.com
Clínica Clinupclinup.blogspot.com
Instagram@empqnasdoses
0

Capitã Marvel – A jornada do Herói

5 de maio de 2020

Foto: Disney / Capitã Marvel / Divulgação 

Resumo: 
Capitã Marvel, parte do exército de elite dos Kree, uma raça alienígena, encontra-se no meio de uma batalha entre seu povo e os Skrulls. Ao tentar impedir uma invasão de larga escala na Terra, em 1995, ela tem memórias recorrentes de uma outra vida, como Carol Danvers, agente da Força Aérea norte-americana. Com a ajuda de Nick Fury, Capitã Marvel precisa descobrir os segredos de seu passado e pôr um fim ao conflito intergaláctico com os Skrulls. (Direção: Anna Boden, Ryan Fleck.)

Para quem assistiu ao filme Capitã Marvel (2019) é provável que alguns possam ter pensado: “Mais um filme de herói com final feliz e um tanto quanto previsível”, ou até mesmo: “mamão com açúcar” – jargão comum que as pessoas usam para classificar filmes. Pensando em um sentido mais profundo, percebo que as intuições, ideias artísticas e de entretenimento, por mais simplórias que possam parecer, sempre proporcionam elementos para refletirmos a respeito. E dessa reflexão surge uma pergunta: O que esse filme diz da natureza humana? 

Poderíamos destacar muitos pontos importantes de cunho psicológico nessa história, mas o que mais chama a atenção é a importância do resgate da história de vida de uma pessoa, da função da memória para a constituição do ser e do grande chamado para o encontro consigo mesmo, que dá início a essa jornada do Herói.

É bem perceptível que Carol Danvers apresenta habilidades e talentos desde o início do filme – luta bem, demonstra fagulhas de um poder que outros personagens não demonstram. Mas ela se apresenta esbarrando-se em dificuldades, alguns sintomas conhecidos por muitos: insônia; impulsividade; reagir pelo calor da emoção; dúvidas constantes a respeito da sua própria história; e falta de clareza.

Observa-se que mesmo parecendo bem-sucedida, com bom emprego e alguns amigos, as inquietações de Carol são consequências da falta de conhecimento de si mesma. E para isso o autoconhecimento é fundamental, para que se aperfeiçoe o discernimento e torne mais claro o motivo gerador das inquietações e a coloque em contato com circunstâncias que promoverão a sua constituição como heroína.

Carol Danvers entra em contato com ela mesma em um formato de “Inteligência Suprema” que se pode entender como o nível de consciência dela naquele momento, mas as informações que ela obtém dessa “consciência” se apresentam com um sentido “enganoso”, com pensamentos e crenças que confundem, geram dúvidas e medo, e minguam, consequentemente, o seu potencial, vontade e a autoestima. Enquanto ela se vê dominada por isso, ela se sente fraca, incapaz, agindo de forma imatura e emocional.

Somente quando ela, após tantos fragmentos de sua história virem à tona, se vê na necessidade de reconstruir em si a própria história, e entra em contato com valores internos importantes como – amizade verdadeira, sentimentos nobres, como o carinho de pessoas queridas de seu passado, lembranças de todas as quedas que ela teve nos desafios da vida, chacotas e momentos vergonhosos, mas que em todas as vezes ela se levantou; somente aí ela tem a clareza de que a nobreza e o potencial de seu ser não estava em quantas vezes ela caiu e no que as pessoas disseram e duvidaram dela, mas sim, em todas vezes que ela se levantou, não desistiu e continuou. Um exemplo claro de uma máxima que conhecemos “Levanta-te e anda”. E neste momento que ela se resgata dela mesma, se encontra com um potencial que estava adormecido em si e com isso pode combater as demais adversidades de sua jornada que assolavam e ela e as suas pessoas queridas.

Os indivíduos em um sentido geral vivenciam dificuldades emocionais que muitas vezes dão sensação de looping na cabeça, (re)vivem fragmentos do passado que, como âncora, vez ou outra martelam na lembrança como um chiclete que gruda e causa angústia, dificuldades de relacionamentos, e muitos outros conflitos que distanciam a pessoa dela mesma, e da essência valorosa e poderosa que tem.

Chega um momento em que se faz necessário conhecer a origem, saber quem somos, encontrar o sentido para viver e o conhecimento que nos revelará aquilo que somos e porque somos assim – aqui começa o chamado que o Herói recebe para encarar sua missão. Até perceber que de alguma forma é necessário sair da pequena zona de conforto que vivemos e percorrer caminhos longos que nos trazem respostas – partir do nosso lugar de origem, juntar as peças do passado, romper com ele e decidir encarar o presente em busca das provas que potencializarão nosso poder de “ser”.

Nos momentos de grandes adversidades em que os vilões parecem ser maiores, na verdade, eles são apenas pequenos coadjuvantes de uma história heroica, que mais cedo ou mais tarde, nos conduzirá a um despertar para o autoconhecimento que proporcionará o enfrentamento das dificuldades com coragem, generosidade e amor próprio. Com isso poderemos constatar o final feliz que cada filme e histórias de heróis nos mostram, que é a demonstração do autodomínio, a sábia aplicação das virtudes, e a vitória de um em prol de toda uma nação. 

No nosso cotidiano, na batalha diária da vida, o final feliz se dará a cada dia pela prevalência dos pensamentos e sentimentos positivos e do que é mais elevado no Ser - as virtudes, a felicidade por aquilo que já conquistamos, as práticas para uma boa saúde e para o bem-estar. Cada gota de suor em prol de se fazer herói revelará a verdadeira essência do ser e beneficiará toda uma nação, que serão todos aqueles que estarão por perto comemorando juntos a vitória de Um Herói - que pode ser você.


____________________

Adriano Pereira, graduado em Psicologia e pós-graduado em Teorias Psicanalíticas. Atua como psicólogo clínico em Brasília.
Contato pelo e-mail:
adrianopbeserra@outlook.com
0

PK, reflexões sobre religiosidade

28 de abril de 2020

Foto: UTV Motion Pictures / PK / Divulgação

O filme PK (2014) fomenta muitas reflexões sobre religião e o conceito de Deus ou divindade. Trata-se de um extraterrestre que chegou na terra e logo de cara teve o seu colar verde roubado. Esse colar era um tipo de controle remoto e era o único meio de retornar para a sua espécie. O inocente alienígena, cujo nome é PK, começa uma busca desesperada e incansável atrás do seu colar. Durante essa busca ele se depara com muitas pessoas que o orientam a pedir ajuda à Deus para encontra-lo. O curioso é que essas pessoas parecem fazer uma prescrição tão mecânica, como se fosse até um ditado popular quando alguém está aflito. Notamos essa tendência natural das pessoas mencionarem Deus sem muita cautela ou de forma superficial, recorrendo por vezes a objetos considerados divinos.

É comum algumas pessoas se apegam a uma simbologia para entender melhor sua existência e tentarem se achegar até uma divindade.  Assim, o filme retrata bem as diferenças, bem como as semelhanças entre diferentes religiões. Isso pode gerar angústia para muitas pessoas e um anseio por finalmente encontrar a religião “CERTA”. É muito comum que os membros de determinada religião a defendem como a correta e logo aquela busca por uma conexão com Deus passa a ser substituída pela alienação e pela defesa de uma ideologia religiosa.

Em sua jornada, PK chega à conclusão que não havia um só Deus, mas vários deuses, cada um com suas regras. Ele começa a se questionar sobre qual era a sua religião e qual era o seu Deus. Essa busca por um sentido espiritual pode algum dia perpassar a vida de todos nós, e, assim como fez o personagem do filme, ela é muito individual e particular. PK resolveu cultivar todos os deuses existentes e a seguir todos os rituais de todas as religiões possíveis, o que demonstra o quanto ele realmente estava aberto a ter uma experiência divina, despindo-se de julgamentos ou preconceitos.

Depois de tantas tentativas fracassadas, o personagem começa a entregar panfletos nas ruas e cola-os por todos os cantos, dizendo: “procura-se Deus”. Em sua busca, usa um capacete amarelo como um indicador, para que Deus o reconheça no meio da multidão. Muitas pessoas entendem a religião como uma bússola, algo que dá sentido a existência e como uma ferramenta na qual ela pode se agarrar em tempos difíceis, principalmente. De fato, essa função pode ser muito válida para muitas pessoas. Contudo, suscito a reflexão sobre diferenciarmos “religião” de “religiosidade/espiritualidade”. O filme mostra claramente a diferença entre esses termos. O primeiro é como uma instituição que, para funcionar, precisa de dogmas, rituais, entre outros. O segundo, por sua vez, é algo muito mais particular, sem um protocolo ou uma prescrição definida. Trata-se de um caminho singular que cada um vai traçar a procura desse sentido. 

Um exemplo das questões já levantadas está em um determinado momento do filme, quando PK observa uma amiga passando um trote para alguém e desperta: “Agora eu entendi! Alguém está passando trotes! Parece que as linhas telefônicas para Deus foram destruídas. Sempre achei estranho que o verdadeiro Deus desse ordens tão esdrúxulas. Que pai diria isso para um filho?” (e aí ele menciona alguns rituais). Sua amiga então pergunta: “E se as ligações fossem para o verdadeiro Deus, o que ele diria?”, e PK responde: “Certamente Deus diria: “Milhões de pessoas morrem de fome na rua, ajude-as”. Eu acho essa cena sensacional e muito reflexiva.  

O filme ainda traz diversas outras críticas extremamente inteligentes sobre como rotulamos as pessoas e as religiões e sobre várias outras temáticas. A forma como acontece o desenrolar do filme é sempre muito divertida, engraçada e, além disso, suscita muita reflexão. O mais interessante do filme é que incentiva o questionamento, ao invés de simplesmente aceitar de forma automática cada ensinamento ou doutrina. A ideia do filme não é criticar nenhuma religião, tampouco criticar a fé ou a cresnça de cada um. Pelo contrário, o filme incentiva a busca por um ser superior particular, um Deus além daquele que é passado como um manual de instruções. A proposta é ir além, é encontrar e construir um conceito de divindade que faça sentido para cada um de nós. Cabe ressaltar que na psicologia, levamos em conta e respeitamos todas as diferenças, incluindo as de cunho religioso. Assistam ao filme e tirem suas próprias conclusões e se desejarem, compartilhem sobre suas ideias e impressões com a gente. Será muito válido e enriquecedor saber sobre o seu ponto de vista.

____________________

Ana Caroline Neres é Psicóloga Clínica, Pós graduanda em Análise do comportamento, CRP 01/21533. Atende crianças, adolescentes e adultos na Clínica de Nutrição e Psicologia - CLINUP. É autora do livro: #Ficaadica.  
Clínica Clinupclinup.blogspot.com
Instagram@psicarolneres
0

As Aventuras de “Alice no País das Maravilhas” (1951)

25 de abril de 2020

Foto: Walt Disney / Alice no País das Maravilhas / Divulgação

Cansada pela leitura de um livro sem gravuras, Alice, desabafa com sua gatinha sobre os tédios de sua realidade, e confessa que se o mundo lhe pertencesse os animais também falariam. Entretanto a menina é distraída de seu discurso por um coelho apressado, de colete e relógio, que reclama de estar atrasado. Alice se vê ardendo de curiosidade e sai correndo atrás da pequena criatura branca e cai em seu buraco de coelho...  Assim se inicia a aventura de Alice pelo País das Maravilhas.

Neste mundo, todos os personagens agem conforme sua lógica, nem sempre ficando claro para Alice qual lógica é essa. O contato com esses personagens provoca Alice fazendo-a refletir sobre quem ela é e aonde quer chegar. As diversas mudanças e a confusão que isso causa em Alice, a faz questionar se realmente é aquilo que ela acredita ser, chegando a afirmar não saber mais quem é após tantas transformações. Como se não bastasse, a cada novo ser que encontra é questiona quem ela é, já que é diferente deles e não se parece com nada que haviam visto antes.

Tentando se incluir nesse estranho mundo, Alice busca agir seguindo as normas sociais que aprendeu em sua casa e que conhece como adequadas. Porém, cada vez em que age assim, é confrontada pelos habitantes do País das Maravilhas por não se enquadrar nas normas socioculturais dali. Essa situação deixa Alice confusa por se perceber em um mundo “maluco", em que as coisas funcionam diferente, onde tudo foge a sua norma, ao mesmo tempo em que é ela que não se encaixa na normalidade daquele país.

Após viver situações que na cultura de Alice seriam ridículas e malucas, ela se cansa e se arrepende de ter saído de casa confessando que “daria tudo para sair deste lugar. Seria tão bom se tudo voltasse a ser como era antes”. Se lamentando por não ter juízo e ser tão curiosa, ela chora e conclui que se enganou ao sair correndo sem pensar. Movida pela curiosidade ela agiu de forma impulsiva, sem buscar exercer o bom senso que sua cultura fala para ter.

O País das maravilhas é um lugar "maluco" onde tudo foge a norma, mas o que tem isso de maravilhoso? Será que a maravilha desse país está na oportunidade de sair da caixa, de pensar além dos padrões de normalidade impostos?! Será que é maluquice ou maravilha se permitir usar a curiosidade, buscar aventuras, repensar conhecimentos e “sair da caixinha” do comum?! Quantas vezes nos vemos obrigados a ter sempre uma única resposta sobre quem somos e para onde vamos? Quantas vezes sentimos como se existissem respostas certas e erradas? Mas se somos seres em constante construção e desconstrução, estamos sempre mudando, repensando e replanejando, então como saber todas essas respostas?! E a quem serve o gabarito delas?!

Bem, o gabarito social de ser e estar "ideal" só serve a sociedade enquanto uma forma de dar satisfação aos outros. Ver além das aparências, buscar nossa essência, aceitar quem somos, e a partir dessa aceitação ir em busca de alcançar sonhos talvez seja uma maneira mais saudável de viver em um mundo que sempre muda, nunca é o mesmo, em que os moldes são descartáveis, e provavelmente o que serve hoje não servirá para muito amanhã. Tornar-se si mesmo é a aventura que o País das Maravilhas convida Alice a participar, a final, refletir a cerca de si é a oportunidade maravilhosa de encontrar-se, e, quem sabe, vencer o tédio de viver às custas do que os outros querem decidir por nós.

____________________

Alyne Farias Moreira, brasiliense do quadradinho, mas refugiada entre a beira do Araguaia e a sombra da Serra Azul. Mãe da Cora Linda, psicóloga, CRP 18/02963, equoterapeuta, professora e palestrante. Apaixonada pelo desenvolvimento humano e por psicanálise.  
Contato: (66) 99224-9686
Instagram: @vir_a_ser_Alyne






Cinthia Regina Moura Rebouças, psicóloga, CRP 23/001197, atende em consultório particular, adolescentes e adultos, com ênfase psicanalítica, em Palmas-TO. Possui MBA em Gestão de Pessoas (FGV), experiência como Docente do Curso de Gestão de Recursos Humanos, trabalha na interseção entre psicanálise e Trabalho. Tem experiência em trabalho com grupos, Avaliação Psicológica, na área Organizacional e na Condução de processos de Orientação Profissional.
Acompanhe seu trabalho em:
Instagram: @empqnasdoses



Sheila Francisca Machado reside em Brasília, é psicóloga clínica, especialista em psicologia clínica e especializada em avaliação psicológica, CRP 01/16880. Atende adolescentes e adultos na Clínica de Nutrição e Psicologia - CLINUP. Atua com a abordagem Análise do Comportamento.

Contato: sheila_machado_@hotmail.com
Clínica Clinup: clinup.blogspot.com
Instagram: @empqnasdoses

0

A jornada por autoestima de Penélope

3 de dezembro de 2019

Foto: Paris Filmes / Penélope (2006) / Divulgação
No filme Penélope (2006), uma jovem rica vive sem sair de casa por conta de uma maldição familiar lançada sobre seus antepassados, a qual fez com que ela nascesse com nariz e orelhas de porco. A maldição foi lançada por uma senhora que perdeu a filha por conta da rejeição da rica família Wilhern em deixar um de seus filhos casar com uma moça pobre. A forma da família Wilhern quebrar a maldição seria a aceitação de Penélope por um dos seus, o que fez com que a mãe de Penélope Wilhern buscasse um jovem rico que aceitasse se casar com ela.

Logo no começo do filme, acompanhamos o sofrimento de Penélope por viver trancada em casa sem sair para que sua aparência fosse escondida, já que sua mãe tinha dificuldade em aceitar que sua filha era diferente. Para que a maldição se quebrasse e a filha passasse a ter a aparência de uma jovem normal, sua mãe contratou uma agencia de casamentos para procurar pretendentes ricos para a jovem. Um dos pretendentes que sua mãe trouxe ficou tão horrorizado com a aparência de Penélope que foi direto a polícia denunciar o que viu, chegando a exagerar a aparência da moça ao descrevê-la. 

Penélope já estava cansada de procurar pretendentes, por achar que nenhum aceitaria sua aparência, enquanto tudo que ela queria era sair de casa e viver uma vida normal. Até que, na tentativa de provar que não estava louco, seu pretendente e um repórter contrataram um rapaz para se fingir de pretendente e tirar uma foto da moça. O encontro entre os dois dá início a uma série de mudança na vida de ambos.

O sentimento de Penélope é um sentimento real para muitas pessoas. Quando se fala em autoestima, muitos fatores podem afetar como uma pessoa se vê, como a aparência, a capacidade cognitiva, suas habilidades para esportes, o quão bem uma pessoa acha que deveria se comunicar, entre outros. O sentimento de não ser bom o bastante e por isso precisar se fechar do mundo é a mansão em que muitos se trancam, perdendo assim sua liberdade.

Penélope estava trancada por sua família e por si mesma, esperando por um outro que a estimasse e abrisse a ela as portas para o mundo. Mas será que sua vida não teria sido diferente se ela e sua família tivessem outra visão sobre o que é importante? Precisamos aprender a olhar para nossos pontos positivos e valorizá-los. Uma olhada no espelho de forma bem detalhada pode nos mostrar mais do que a aparência inicial que temos de nós mesmos.

A autoestima é saber olhar para nossos pontos positivos e negativos como nossos aliados. Os positivos são aqueles que precisamos manter, às vezes aprimorar. Em contrapartida, os negativos são pontos a melhorar, que podem ser usados para direcionarmos nossas energias e planejamentos, sendo que algumas vezes o melhor que podemos fazer é aprender a aceitar nossa limitação e viver em paz com ela. Não temos que ser bons em tudo, mas sempre tem alguma coisa em que somos bons. Ao aceitar nossas falhas começamos a promover a mudança na nossa vida.

Estar atento a quem nós somos, observando cada momento em que vivemos para entender nossas ações, pode nos mostrar que talvez não estejamos focando no que realmente importa. A autoestima é construída durante nossa história de vida e depende de uma série de experiências que temos ao longo dela. Mas justamente por ser construída também pode ser modificada e reconstruída.

Às vezes precisamos ultrapassar o limite do portão da nossa casa interior para nos libertar da ideia engessada que temos de quem somos, renovando assim nossa autopercepção. O que vai quebrar uma maldição, pode ser um detalhe que passou despercebido, que o diga Penélope que só percebeu isso quando olhou com outros olhos para a maldição que via no espelho.

____________________



Sheila Francisca Machado reside em Brasília, é psicóloga clínica, especialista em psicologia clínica e especializada em avaliação psicológica, CRP 01/16880. Atende adolescentes e adultos na Clínica de Nutrição e Psicologia - CLINUP. Atua com a abordagem Análise do Comportamento.
Contato: sheila_machado_@hotmail.com
Clínica Clinup: clinup.blogspot.com
Instagram: @empqnasdoses


0