Mostrando postagens com marcador Ficção científica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ficção científica. Mostrar todas as postagens

Amor e Monstros – uma aventura sobre desenvolvimento pessoal e sair da zona de conforto

2 de julho de 2021

 

Foto: Paramount Pictures/ Amor e Monstros / Divulgação.

Em um mundo distópico, onde uma chuva de produtos químicos alterou a vida na terra, transformando insetos e animais pequenos em grandes monstros, Joel Dawson vive a 7 anos em um abrigo subterrâneo junto com outras pessoas. No abrigo, todos tem um par para chamar de seu, menos Joel, que ainda sente falta de Aimee, sua namorada de antes do apocalipse acontecer. Sabendo onde ela está, Joel decide sair em uma viagem impossível na superfície para encontrar novamente com sua amada. Assim começa a jornada do filme “Amor e Monstros” (2020).

Joel é um rapaz dedicado e sensível. Durante seu tempo no abrigo, assumiu a responsabilidade de cozinhar para os outros moradores, já que sempre que via um monstro ficava travado, paralisado sem reação. A tarefa de enfrentar os monstros e ir atrás de comida na superfície ficava a cargo de outros moradores. Permanecer ali se tornou confortável para todos, apesar de terem que estar sempre alertas aos perigos da superfície.

Juntos a 7 anos, os moradores do abrigo se tornaram se uma família, cada um cuidado do outro da maneira que pode. Mas Joel se sentia sozinho por ser aparentemente o único que não tinha um amor por perto. Por sentir falta de Aimee, tentou contato através de um rádio com outros abrigos a procura da amada, chegando a afirmar que falou com 90 abrigos até conseguir finalmente falar com ela de novo. 

Fechado em sua zona de conforto, valorizar aquilo que prendia Joel ao passado parecia mais importante do que valorizar os amigos e a vida do presente. Mas o mundo anterior ao apocalipse não existia mais. A ideia de encontrar com o que ainda lhe sobrava de seu passado atrapalhava-o a aproveitar as pequenas coisas do presente junto a nova família no abrigo.

Após seu abrigo ser invadido por um dos monstros gigantes, Joel decide ir em burca de encontrar Aimee. Pare ele, a invasão foi um atestado de que poderia morrer a qualquer momento sem nunca ter realmente se arriscado para proteger seus amigos ou para reencontrar seu amor. De que valeria ter vivido ali sem nunca ter tido várias experiências que gostaria de ter?

Seus amigos preocupados o avisaram dos perigos da superfície e temiam que ele não fosse capaz de fazer a viagem, já que sempre foi protegido pelos outros, não acreditavam que ele teria as habilidades necessárias para sobreviver. Mas Joel estava decido e seus amigos fizeram um mapa para que ele pudesse andar na superfície. Uma singela demonstração de carinho e afeto, mas que ele não era capaz de perceber por estar focado demais em seu passado.

No primeiro dia de Viagem, Joel é obrigado a confrontar a realidade de sua falta de habilidades ao encontrar com um sapo monstro na piscina de uma casa abandonada. Graças ao cachorro chamado Garoto, Joel consegue se salvar e faz sua primeira amizade na superfície. Além da amizade, ele também faz uma primeira constatação: estar ali sozinho era perigoso e seria necessário estar mais alerta. A companhia de Garoto se torna importante, tanto por questões de sobrevivência quanto como um suporte emocional.

Caminhando pela floresta para chegar em seu destino, Joel tem a oportunidade de sentir novamente algumas sensações que os anos de proteção no abrigo te tiraram, como sentir cheiros, o vento e apreciar a paisagem. Pequenas coisas que muitas vezes não são valorizadas, até que são perdidas e passam a fazer falta.

Após uma parte do percurso, Joel acaba sendo salvo novamente deum grupo de monstros, dessa vez por Clyde Dutton e pela pequena Minnow. A princípio a dupla estranha ele andando sozinho na superfície após deixar seu abrigo. Tanto que o primeiro questionamento foi se ele era um ladrão de comida. Mas deram uma chance para ele, deixando que Joel o acompanhasse por uma parte do caminho. 

Com Clyde e Minnow, Joel teve a oportunidade de aprender habilidades de sobrevivência, como aprender a atirar, se defender, o que comer, como lidar com alguns monstros e que se sobreviver a alguns erros vai conseguir se virar por aí, já que bons instintos se conquistam cometendo alguns erros. Pode também voltar a entender o valor de se criar laços e valorizar quem está perto.

Quando os caminhos se dividiram, Joel e Garoto tiveram a oportunidade de testar o que aprenderam com Clyde e Minnow, cometeram alguns erros e aparentemente se saíram bem. A decisão de Joel de sair do abrigo lhe deu a oportunidade de se conhecer melhor, se desenvolver e aprender a se defender sozinho. Foi a jornada para encontrar Aimee que lhe permitiu sair da zona de conforto, tomar as próprias decisões e desenvolver habilidades de vida no mundo pós-apocalíptico em que se encontrava.

Sair da zona de conforto pode gerar insegurança, mas é fora da zona de conforto que temos oportunidade de aprender coisas novas e descobrir nossos potenciais e limites. Podemos aprender com os próprios erros, ao mesmo tempo que temos como aprender com os erros dos outros e com as dicas que são nos passadas. Cabe a nós saber filtrar as informações para que sejam aproveitadas de acordo com as nossas vivências. 

O medo de se arriscar fora da zona de conforto limita nossas experiências e pode atrapalhar que desenvolvamos algumas habilidades de vida importantes. Algumas vezes teremos oportunidades de tem alguém para nos guiar. Contudo, em outros momentos será necessário fazer adaptações e criar novas estratégias de enfrentamento para aquilo que não temos uma informação prévia. Por isso, os erros são grandes fontes de aprendizado, principalmente se aprendermos a não cometer os mesmos erros.

Joel teve a oportunidade de ter lições valiosas em sua caminha em termos de autoconhecimento. Também pode aprender que às vezes é preciso se arriscar para perceber o que realmente se quer e quem realmente é importante. Joel correu o risco de se decepcionar com o que iria encontrar quando atingisse seu objetivo final. Independentemente disso, foi sair da zona de conforto que expandiu seus horizontes. E se Joel conseguiu se permitir viver uma nova aventura e ampliar os horizontes, qualquer um consegue!

____________________


Sheila Francisca Machado reside em Brasília, é psicóloga clínica, especialista em psicologia clínica e especializada em avaliação psicológica, CRP 01/16880. Atende adolescentes e adultos na Clínica de Nutrição e Psicologia - CLINUP. Atua com a abordagem Análise do Comportamento.
Contato: sheila_machado_@hotmail.com
Clínica Clinupclinup.blogspot.com
Instagram@empqnasdoses
0

Passageiros - refletindo sobre planos de vida

26 de fevereiro de 2021

 


Foto: Sony Pictures / Passageiros / Divulgação.

Imagine um evento capaz de mudar o rumo da vida de uma pessoa. Todos os planos e expectativas, os esforços e investimentos impedidos de prosperar. Toda energia empenhada em uma direção, a quantidade de horas e de tempo investido em um sonho que infelizmente não se concretizou. Só quem já teve seu castelo posto por chão abaixo sabe o quão frustrante é fazer todo um planejamento e não conseguir colher os frutos de seu empenho. Esse tipo de situação é capaz até de imobilizar algumas pessoas, fazendo-as cair na apatia e no desgosto. A força dos eventos adversos e a forma de superá-los é um dos tópicos que acompanhamos no filme “Passageiros” (2016).

Uma nave leva 5.000 passageiros a caminho de um mundo-colônia, parte da viagem de 120 anos para colonizar outro planeta com a promessa de um novo recomeço. No meio da viagem, dois passageiros Jim e Aurora acabam acordando 90 anos antes da nave chegar ao seu destino e logo se desesperam ao descobrir que não é possível voltar a dormir. Pois, todos os passageiros são transportados em câmaras criogênicas, justamente para não envelhecerem durante a viagem. Ao continuarem acordados, Jim e Aurora envelhecerão na velocidade normal humana enquanto os outros passageiros não, consequentemente, não chegarão ao seu destino e não concretizarão os planos que os fizeram embarcar nessa viagem.

Como duas pessoas podem ocupar as suas vidas inteiras isoladas da sociedade? Tudo depende sobre como as pessoas se relacionam com o tempo e consigo mesmas. No caso de Jim e Aurora, o filme nos dá algumas ideias de como o tempo deles se passou e nos dá um parâmetro de como esse tempo pode ser dispendido, nos mostrando as formas tão díspares entre Jim e Aurora. Também mostra como fazemos uso do tempo quando estamos frustrados e como ele pode ser aproveitado com qualidade e propósitos criados por nós.

Um spoiler inevitável é dizer que Jim demostra mais dificuldade de lidar com o tempo e com a solidão do que Aurora. Porém, mesmo na adversidade, havia algo que apenas Jim poderia fazer. Logo ele, tinha a habilidade necessária para desempenhar uma tarefa vital, não só para ele, como para toda a população da nave Avalon. Se o infortúnio de ser acordado não tivesse acometido Jim, ele não conseguiria cumprir com sua tarefa e tudo seria desastrosamente diferente.

Quantas vezes algo nos leva para longe dos nossos planos e ficamos inconsoláveis, ressentidos ou até estagnados por não termos compreensão do motivo daquele acontecimento. Quantas vezes nos perguntamos: Por que eu? Por que comigo? Sem saber que, como Jim, aquela missão exigia exatamente as ferramentas que ele possuía. Frente uma decepção de escala colossal podemos nos revoltar, podemos estagnar e até adoecer, afinal, somos humanos e faz parte de nós a dificuldade de lidar com a frustração. Porém, será que merecemos ter nossa vida, que ainda existe para ser aproveitada controlada por algo que nos passou?

Sem Jim, as coisas seriam diferentes e, sem Aurora, suportar os dias seriam muito difíceis para Jim. Ela precisava dele e ele necessitava dela, nos fazendo enxergar que "a males que podem vir para o bem". Sabe aquela frase que diz: Enquanto há vida ainda há jeito? É desses rearranjos criativos, dessas possiblidades de fazer com o que se tem, essa capacidade intrinsecamente humana de sobreviver "apesar de..." que o filme trata.

Os planos foram perdidos, mas eles ainda tinham um ao outro e uma vida inteira para criar novos projetos dentro desta outra realidade que agora se apresentava a eles, nos fazendo refletir sobre o tempo e que aproveitá-lo ou desperdiçá-lo é uma questão de atitude, de encarar que felicidade não é um destino, e sim uma viagem na qual todos nós somos passageiros. Fazer essa viagem valer a pena, mesmo quando não sai da forma exatamente planejada por nós é um desafio diário de cada um. É preciso topar o desafio.

____________________




Cinthia Regina Moura Rebouças, psicóloga, CRP 23/001197, atende em consultório particular, adolescentes e adultos, com ênfase psicanalítica, em Palmas-TO. Possui MBA em Gestão de Pessoas (FGV), experiência como Docente do Curso de Gestão de Recursos Humanos, trabalha na interseção entre psicanálise e Trabalho. Tem experiência em trabalho com grupos, Avaliação Psicológica, na área Organizacional e na Condução de processos de Orientação Profissional.
Acompanhe seu trabalho em:
Instagram: @empqnasdoses
0

O Céu da Meia-Noite – a luta para atingir um objetivo

12 de janeiro de 2021

 


Foto: Netflix / O Céu da Meia-Noite / Divulgação.


O que você sacrificaria por um objetivo? No drama de ficção científica “O Céu da Meia-Noite” (2020), Augustine Lofthouse é um astrônomo que dedicou sua vida inteira a profissão. Ainda jovem, através de seus estudos, descobriu que a lua K-23 de Júpiter poderia ter as condições necessárias para a vida dos seres humanos, sendo uma possibilidade de segunda casa. Agora, em 2049, a três semanas ocorreu um evento catastrófico e o Observatório Espacial no Ártico em que estava começou a ter seus residentes realocados para abrigos subterrâneos, pois a vida em cima da Terra já não era mais tão adequada a sobrevivência humana. Augustine fica para trás, já que depende dos equipamentos do Observatório para tratar sua saúde já debilitada.

Augustine viveu para o trabalho e para a ciência, mas não foi o suficiente para impedi-lo de presenciar a decadência da Terra. No observatório sozinho, lhe resta viver os dias que ainda têm e aproveitar para ver os dados de missões espaciais armazenadas no computador. E é olhando essas informações que parece encontrar um novo objetivo. Uma missão ainda ativa da espaçonave Aether lhe chamou atenção após analisar os tripulantes e objetivos da missão. Aether estava em uma missão de dois anos até a lua K-23 para observar o lugar e prepara-lo para que colonos saíssem da Terra para ir até lá. Sim, uma missão com um valor sentimental por alguns motivos. A lua habitável estava pronta para receber uma colônia espacial, a lua que ele descobriu e estudou durante tanto tempo. Um dos membros da tripulação também lhe chamava a atenção.

Assim, Augustine começa a tentar contato com a nave para que ela retorne a lua K-23, dando uma chance maior de sobrevivência aos tripulantes da nave. Dia após dia tenta contato sem sucesso, aparentemente sua antena não é forte o suficiente. Ao mesmo tempo, começa a perceber algo estranho, como um cereal em cima da mesa que não lembra de ter posto, ou a cozinha pegando fogo com ele dormindo. Estaria ele ficando com confusão mental? Bem, ao apagar o fogo da cozinha acha uma criança perdida, que não se comunica, ficando sem ao menos saber seu nome para tentar pedir seu resgate, afinal, um homem doente não é capaz de cuidar de uma criança. Porém, no decorrer do filme novos detalhes mostram uma outra face de Augustine.

Pelo trabalho, Augustine abriu mão de tudo, inclusive de um relacionamento com Jean Sullivan, que trabalhou com ele. Após uma suspeita de gravidez, ele se afastou dela, o que a levou a abrir mão dele. Aparentemente, as memorias de Augustine sobre Jean são de uma grande mulher e de arrependimento. Quando a viu depois de alguns anos do término, se quer conseguiu trocar mais do que algumas poucas frases, enquanto se questionava se a filha de Jean era a sua filha. Ele abriu mão de tudo, viveu pelo sonho profissional de descobrir um planeta habitável, de poder ajudar a humanidade a ter um plano de escape. Sacrificou tudo que pode na vida por seu objetivo! Será que havia arrependimento de sua parte? Será que precisava mesmo ter sacrificado tudo? Alguns de seus sacrifícios poderiam ter sido por medo ao invés de necessidade?

Deste modo, acompanhamos a jornada de Augustine tentando encarar seus fantasmas do passado ao mesmo tempo que vai até a Estação Meteorológica Lake Hazen para usar o satélite de lá para fazer contato com a nave Aether. Enquanto isso, a tripulação da nave, composta por 5 pessoas, estava em alerta. Não entendiam a falta de contato com a Terra, não sabia o que estava ocorrendo em solo, mas seguiam firmes no objetivo de retornar ao seu planeta. Algo parecia estranho, já que não tinham sinal de outra espaçonave com colonos que já deveria estar em órbita e não tinham comunicação com nenhuma base de comando. Voltar à Terra no escuro acarretava em enfrentar perigos desconhecidos, os quais poderiam não estar preparados. O objetivo da missão estava cumprido, muitos sacrifícios fizeram para estarem ali, as informações que estavam levando eram preciosas e alguns tinham família para quem voltar. Receber a mensagem de Augustine lhes daria uma oportunidade de escolha.

Na vida, temos oportunidade de traçar e repensar vários objetivos. Muitos deles para serem alcançados demandam de nós sacrifícios. Não basta traçarmos objetivos e metas e não pensarmos nas consequências que podem trazer para a nossa vida. Decidir sacrificar algo em prol de um objetivo é uma escolha que precisa ser pensada, levando em conta os prós e contras. Agir por impulsividade ou por medo, pode levar a consequências que irão permanecer em nossas cabeças o resto da nossa vida. E se tivesse sido de outro jeito? E se tivesse procurado outra alternativa? E se tentasse fazer as duas coisas ao mesmo tempo? Esses e outros “e se”s nunca terão uma resposta, pois não há como se mudar o passado. O que se pode fazer é agir com consciência no presente, para que os arrependimentos não nos sigam e nos atrapalhem, como se fossem uma espécie de fantasmas do passado.

É importante ter um objetivo, estando disposto e motivado para leva-lo adiante. Alguns sacrifícios podem ser necessários, levando a alguma recompensa futura que faça tudo valer a pena. A jornada de Augustine para se comunicar com Aether é cheia de sacrifícios e dificuldades, na esperança de ser capaz de ajudar alguém, um certo alguém. Ter as informações que Augustine queria passar daria aos membros da tripulação de Aether a oportunidade de analisar o cenário atual para fazer uma escolha consciente que também traria algum tipo de sacrifício. Ponderar e se atentar aos detalhes é um fator muito importante neste tipo de escolha. Conhecer as próprias prioridades e valores também é relevante para fazer uma escolha. Sendo importante também estar aberto a pensar sobre as segundas chances que a vida nos dá e saber quando é hora de repensar o que escolheu, caso a situação em que nos encontramos mude. Arrependimentos poderão existir sim, mas se a escolha for consciente a forma de lidar com eles pode ser bem menos sofrida.

____________________

Sheila Francisca Machado reside em Brasília, é psicóloga clínica, especialista em psicologia clínica e especializada em avaliação psicológica, CRP 01/16880. Atende adolescentes e adultos na Clínica de Nutrição e Psicologia - CLINUP. Atua com a abordagem Análise do Comportamento.
Contato: sheila_machado_@hotmail.com
Clínica Clinupclinup.blogspot.com
Instagram@empqnasdoses
0

Capitã Marvel – A jornada do Herói

5 de maio de 2020

Foto: Disney / Capitã Marvel / Divulgação 

Resumo: 
Capitã Marvel, parte do exército de elite dos Kree, uma raça alienígena, encontra-se no meio de uma batalha entre seu povo e os Skrulls. Ao tentar impedir uma invasão de larga escala na Terra, em 1995, ela tem memórias recorrentes de uma outra vida, como Carol Danvers, agente da Força Aérea norte-americana. Com a ajuda de Nick Fury, Capitã Marvel precisa descobrir os segredos de seu passado e pôr um fim ao conflito intergaláctico com os Skrulls. (Direção: Anna Boden, Ryan Fleck.)

Para quem assistiu ao filme Capitã Marvel (2019) é provável que alguns possam ter pensado: “Mais um filme de herói com final feliz e um tanto quanto previsível”, ou até mesmo: “mamão com açúcar” – jargão comum que as pessoas usam para classificar filmes. Pensando em um sentido mais profundo, percebo que as intuições, ideias artísticas e de entretenimento, por mais simplórias que possam parecer, sempre proporcionam elementos para refletirmos a respeito. E dessa reflexão surge uma pergunta: O que esse filme diz da natureza humana? 

Poderíamos destacar muitos pontos importantes de cunho psicológico nessa história, mas o que mais chama a atenção é a importância do resgate da história de vida de uma pessoa, da função da memória para a constituição do ser e do grande chamado para o encontro consigo mesmo, que dá início a essa jornada do Herói.

É bem perceptível que Carol Danvers apresenta habilidades e talentos desde o início do filme – luta bem, demonstra fagulhas de um poder que outros personagens não demonstram. Mas ela se apresenta esbarrando-se em dificuldades, alguns sintomas conhecidos por muitos: insônia; impulsividade; reagir pelo calor da emoção; dúvidas constantes a respeito da sua própria história; e falta de clareza.

Observa-se que mesmo parecendo bem-sucedida, com bom emprego e alguns amigos, as inquietações de Carol são consequências da falta de conhecimento de si mesma. E para isso o autoconhecimento é fundamental, para que se aperfeiçoe o discernimento e torne mais claro o motivo gerador das inquietações e a coloque em contato com circunstâncias que promoverão a sua constituição como heroína.

Carol Danvers entra em contato com ela mesma em um formato de “Inteligência Suprema” que se pode entender como o nível de consciência dela naquele momento, mas as informações que ela obtém dessa “consciência” se apresentam com um sentido “enganoso”, com pensamentos e crenças que confundem, geram dúvidas e medo, e minguam, consequentemente, o seu potencial, vontade e a autoestima. Enquanto ela se vê dominada por isso, ela se sente fraca, incapaz, agindo de forma imatura e emocional.

Somente quando ela, após tantos fragmentos de sua história virem à tona, se vê na necessidade de reconstruir em si a própria história, e entra em contato com valores internos importantes como – amizade verdadeira, sentimentos nobres, como o carinho de pessoas queridas de seu passado, lembranças de todas as quedas que ela teve nos desafios da vida, chacotas e momentos vergonhosos, mas que em todas as vezes ela se levantou; somente aí ela tem a clareza de que a nobreza e o potencial de seu ser não estava em quantas vezes ela caiu e no que as pessoas disseram e duvidaram dela, mas sim, em todas vezes que ela se levantou, não desistiu e continuou. Um exemplo claro de uma máxima que conhecemos “Levanta-te e anda”. E neste momento que ela se resgata dela mesma, se encontra com um potencial que estava adormecido em si e com isso pode combater as demais adversidades de sua jornada que assolavam e ela e as suas pessoas queridas.

Os indivíduos em um sentido geral vivenciam dificuldades emocionais que muitas vezes dão sensação de looping na cabeça, (re)vivem fragmentos do passado que, como âncora, vez ou outra martelam na lembrança como um chiclete que gruda e causa angústia, dificuldades de relacionamentos, e muitos outros conflitos que distanciam a pessoa dela mesma, e da essência valorosa e poderosa que tem.

Chega um momento em que se faz necessário conhecer a origem, saber quem somos, encontrar o sentido para viver e o conhecimento que nos revelará aquilo que somos e porque somos assim – aqui começa o chamado que o Herói recebe para encarar sua missão. Até perceber que de alguma forma é necessário sair da pequena zona de conforto que vivemos e percorrer caminhos longos que nos trazem respostas – partir do nosso lugar de origem, juntar as peças do passado, romper com ele e decidir encarar o presente em busca das provas que potencializarão nosso poder de “ser”.

Nos momentos de grandes adversidades em que os vilões parecem ser maiores, na verdade, eles são apenas pequenos coadjuvantes de uma história heroica, que mais cedo ou mais tarde, nos conduzirá a um despertar para o autoconhecimento que proporcionará o enfrentamento das dificuldades com coragem, generosidade e amor próprio. Com isso poderemos constatar o final feliz que cada filme e histórias de heróis nos mostram, que é a demonstração do autodomínio, a sábia aplicação das virtudes, e a vitória de um em prol de toda uma nação. 

No nosso cotidiano, na batalha diária da vida, o final feliz se dará a cada dia pela prevalência dos pensamentos e sentimentos positivos e do que é mais elevado no Ser - as virtudes, a felicidade por aquilo que já conquistamos, as práticas para uma boa saúde e para o bem-estar. Cada gota de suor em prol de se fazer herói revelará a verdadeira essência do ser e beneficiará toda uma nação, que serão todos aqueles que estarão por perto comemorando juntos a vitória de Um Herói - que pode ser você.


____________________

Adriano Pereira, graduado em Psicologia e pós-graduado em Teorias Psicanalíticas. Atua como psicólogo clínico em Brasília.
Contato pelo e-mail:
adrianopbeserra@outlook.com
0

O Poço

21 de abril de 2020

Foto: Netflix / O Poço / Divulgação

Em tempos de Pandemia, o desespero tem alimentado o egoísmo de muitas pessoas. As filas nos mercados, as prateleiras vazias, refletem bem esse espírito primitivo de sobrevivência, que visa olhar somente para o próprio umbigo, ao invés de priorizar a manutenção da espécie. A lógica egóica do "Farinha pouca, meu pirão primeiro" é sustentada pela ignorância e alimentada pelo sentimento de autocuidado, quando na verdade, sabemos que se faltar recursos de proteção e de higiene para o outro, de alguma forma isso vai ser refletido em nós também.

No filme "O Poço" (2020) lançado recentemente pela Netflix, podemos ver de forma crua, fria e assustadora, esse movimento individualista e a forma como ele afeta os personagens. Todos estão no mesmo poço, em níveis diferentes, mas sobrevivendo de acordo com as mesmas regras. Existe uma aparente hierarquia e, quem pensa que está em cima, no dia seguinte pode estar em baixo. Um dia se lambuzam com as melhores iguarias, sem se preocuparem que outros irão passar fome, sendo que dias depois, o estômago vazio é daquele que teve a oportunidade de saborear um banquete e, assim o fez, mas não compartilhou. Dias depois, a pessoa vira o prato principal. Apesar de não sermos literal, devoramos uns aos outros de diversas maneiras diferentes.

"Existem três tipos de pessoas: As de cima. As de baixo. E as que caem."

A crítica social presente nesse filme é essencial para nossa reflexão nesses tempos tão sombrios, onde cada dia fica mais gritante a necessidade de uma maior conscientização, solidariedade, cuidado e respeito com o próximo. Esse é um momento em que pensar nos outros, agir em prol da coletividade, é questão de sobrevivência. É vital.

O fundo do poço é diferente para cada pessoa. E a mensagem que temos que levar é que o sistema nunca vai mudar se não mudarmos primeiro. Subiremos de nível, desceremos de nível, mas permaneceremos reféns de toda crueldade dessa engrenagem individualista que tem como gasolina o nosso suor, nossas lágrimas e, muitas vezes, o nosso sangue.

Somos sujeitos singulares, mas fazemos parte de uma sociedade plural. Então fique em casa e aproveite para assistir esse filme sensacional.

____________________

Caroline Queiroz Souza é graduanda do nono semestre do curso de Psicologia da Faculdade Unime Salvador. Estagiária de ênfase em saúde, sob orientação psicanalítica, da clinica-escola de Psicologia da Unime Salvador. Atuou como Monitora da extensão Clínica das Psicoses pelo período de um ano (2019).
Instagram: @shecaroli
0

O Nevoeiro, uma reflexão sobre isolamento

27 de março de 2020

Foto: Dimension Films & Darkwoods Productions / O Nevoeiro / Divulgação
Quando um nevoeiro começa a tomar conta de uma pequena cidade, os cidadãos que estavam em um mercado acabam isolados dentro dele. Assim começa o filme “O Nevoeiro” (2007).

David e seu filho Billy, saem de casa para ir ao mercado, junto a seu vizinho Brent, para comprar alguns mantimentos, quando um nevoeiro parece começar a tomar a cidade. Ao chegar no mercado, começam a fazer as compras normalmente, sem preocupações, acreditando ser apenas um nevoeiro comum. Mas, é quando um dos moradores da cidade, Dan, corre até o mercado, com o nariz sangrando, avisando que há algo de estranho neste nevoeiro e que todos precisam se abrigar, que a situação muda drasticamente.

Isolados dentro do mercado, sem informações sobre o que estava naquela névoa, começam a aparecer os medos em relação aquilo que eles não podem ver e desconhecem sua natureza. Até que David e 4 funcionários do mercado, vão até o estoque para tentar fazer o gerador de energia funcionar. Como algo externo estava impedindo o correto funcionamento do equipamento, o jovem Norm, um empacotador do mercado, decide sair pelo portão do estoque para solucionar o problema. É aí que David e os funcionários do mercado começam a entender que tipo de seres podem estar vivendo em meio àquela névoa.

Assustados com o que passaram no estoque, decidem contar às outras pessoas isoladas no mercado o que viram. Vários sentimentos diferentes tomam o ambiente após o comunicado. As pessoas ali isoladas começam a demonstrar o quanto estão assustadas e confusas com o que está se passando. Alguns recorrem as suas crenças religiosas. Outros agem com negação sobre o que podem estar enfrentando, como se precisassem ver para crer. Há ainda os que tentam racionalizar a situação. À medida que o tempo passa, a agressividade entre os isolados começa a aumentar, alguns chegando a agredir fisicamente outros.

Porém, a situação complica mesmo ao anoitecer e todos verem os seres que estão no nevoeiro. Nesse instante, começam os atos desesperados, com algumas pessoas chegando a perder a noção de realidade. O discurso inflamado de fanatismo religioso da Sra. Carmody sobre estarem no “dia do juízo final” começa a juntar um grupo de pessoas, que passam a trata-la como se ela fosse uma profeta, capaz de dizer os próximos acontecimentos. A cada hora de confinamento, mais pessoas se juntavam a ela, e a caça ao culpado da situação, guiada por ela, faz com que os isolados agissem de forma irracional, a fim de chegarem a salvação. Esse grupo de pessoas estava paralisado pelo medo, precisando de algo em que confiar.

Enquanto isso, David e um grupo de pessoas a todo tempo estavam buscando uma solução, uma forma de proteger os outros, se transformando em uma linha de frente, traçando os próximos passos para tentar encontrar uma forma de sobreviver. Justamente por este grupo ser o mais ativo na busca por uma solução, é o que mais se expôs ao perigo, sofrendo, inclusive, algumas baixas. Cada um estava tentando lutar para sair da situação como podia pelo bem de todos que estavam no mercado.

Independente de como estivessem buscando uma solução, todos estavam ali, em meio as incertezas, a confusão e ao desespero. E foi o desespero que mais causou danos a todos os isolados. Foram os atos realizados no momento de desesperança que mais causaram sofrimento. Movidos pela desesperança, muitos chegaram até as últimas consequências, sendo que o que poderia ter contribuído para achar uma forma de passar melhor pela situação seria justamente recorrer a esperança.

Em situações de isolamento, os extremos podem gerar muito sofrimento. A falta e o excesso de informações podem contribuir para um sentimento de pânico, negar o que está acontecendo ou mergulhar de cabeça na situação pode cegar as pessoas, achar que só há sua própria forma de resolver as coisas ou achar que não há mais forma de resolver nada pode aumentar a agressividade nas relações interpessoais, e por aí vai. 

Por mais que a busca por um equilíbrio, por estabelecer uma rotina, sejam difíceis em um momento de crise, precisamos de ações em direção a isso. Aquele que crê pode buscar conforto na crença! As pessoas que estão conosco, presencialmente ou virtualmente, são nossas companhias! Mediar os conflitos através da empatia e comunicação assertiva é uma forma de unir as pessoas! Ter uma ocupação auxilia a nos sentir úteis!

Mesmo em momentos incertos podemos recorrer a esperança! Buscar por um auxílio também é válido, até mesmo porque muitos tratamentos hoje podem ser feitos a distância. Infelizmente, há momentos em que o distanciamento físico das pessoas pode ser necessário por um bem coletivo. Se organizar para tentar cuidar da saúde nesses momentos é uma tarefa muito importante. O que causa o sofrimento do hoje é passageiro e quanto melhor conseguirmos lidar com isso, mais oportunidades o futuro poderá abrir para nós!

____________________



Sheila Francisca Machado reside em Brasília, é psicóloga clínica, especialista em psicologia clínica e especializada em avaliação psicológica, CRP 01/16880. Atende adolescentes e adultos na Clínica de Nutrição e Psicologia - CLINUP. Atua com a abordagem Análise do Comportamento.
Contato: sheila_machado_@hotmail.com
Clínica Clinup: clinup.blogspot.com
Instagram: @empqnasdoses

0