Adeus, Christopher Robin - uma reflexão sobre vínculos familiares

18 de junho de 2021

 

Foto: Searchlight Pictures / Adeus, Christopher Robin / Divulgação.

Relatos e mais relatos são publicados diariamente sobre a relevância da formação para o pleno desenvolvimento das crianças. Estudos este que, em sua maioria, enfatizam a importância de cuidadores que sejam suficientemente bons e que permitam essa criança o acesso aos mais variados recursos físicos e afetivos. Digo variados pois, a depender do meio cultural muda-se também as recomendações a respeito do que é preciso para crescer com saúde e bem-estar.  

Essas recomendações são particularmente importantes na história de família Milne e suas consequências na vida de Christopher Robin, pois, nesta história, os grandes conflitos do filme "Adeus, Christopher Robin" (2017) são originados nos conflitos individuais e nas relações entre os membros desta família (Christopher Robin, seu pai Blue e sua mãe Daphne).   

A família Milne, ao tentar se consolidar, se vê influenciada por grandes interferências externas: a guerra e a fama.  Diante destas interferências, falta recursos para lidar com as exigências que a construção de uma família traz, ficando essa família marcada pela negligência e falta de conexão.  

Neste contexto de guerra, que se passa na Inglaterra na década de 1920, Christopher (apelidado carinhosamente pela família como Billy Moon) é a figura central de uma fama que ele não pediu para ter, encontrando-se diante das atenções do mundo, após o sucesso dos contos de seu pai que é ausente mesmo quando presente, falho como uma figura paterna. 

E é aí que as coisas começam a ficar ainda mais complicadas para Billy Moon. Com uma vida marcada por excessos e faltas, as visões daquilo que é considerado ser o bom para a criança difere de acordo com o personagem. Na perspectiva dos pais, acompanhamos dois indivíduos tentando dar o melhor de si para a sociedade e o mundo através da conquista profissional ao preço de uma alienação da vida pessoal. Porém, como bons pais (ou pelo menos o que era aceito como bom naquele contexto e sociedade) garantindo o atendimento das "necessidades" de Billy Moon.  

A responsabilidade pela formação de Billy Moon passa a ficar a encargo de uma profissional paga pela família. A babá Olive é a figura responsável pela rotina, proteção e por transmitir, não só conhecimento, mas também o afeto que a mãe Daphne não soube dar, por mais que, provavelmente, o sentisse.  

Billy Moon, então, anseia pela atenção dos pais, mas acaba se acostumando com a falta deles e compreendendo que eles têm suas obrigações. O que fica complicado para ele é cumprir seus próprios compromissos com a fama já que as histórias que seu pai escreve são populares e baseadas na vida de Billy. Blue, pai de Billy sente que ao publicar as histórias consegue levar aquela felicidade de seu filho, imaginação e criatividade, para todo o mundo. Sem conseguir, entretanto, medir o peso das repercussões dessa fama na vida de Billy enquanto o mesmo lida com os inevitáveis desafios do crescimento.  

Essa história baseada em fatos reais, como a de várias outras famílias, trata de questões afetivas que envolvem os papeis de pai e mãe, a reciprocidade entre eles, o papel da família na constituição do sujeito e as necessidades da criança que são atendidas por terceiros com a garantia financeira dos pais fazendo pensar sobre as repercussões dessas decisões da vida de Billy. 

Questionando a própria conceituação do que é uma família, posto que não fica claro quais são as regras próprias deste sistema social, quais são os ritos, os heróis, etc... e mostrando como insipiente os laços entre os membros desta, como se eles fossem na verdade meros conhecidos. Não ficando clara para o telespectador qual é a dinâmica desta família, o que a caracteriza como grupo, o que eles têm em comum. Como se a fama, a contribuição social e o ganho financeiro advindo dela fossem suficientes para suprir o desamparo e o esfacelamento desta família que caracteriza sua existência como entidade social, mas vazia em si mesma.  

Culminando inevitavelmente na derrocada de todos aqueles arranjos que foram construídos para manter a imagem da família quando Billy atinge a maior idade e não precisa mais de seus pais para mediar suas escolhas. É neste momento que é possível em contato com as angústias mais profundas que estavam permeando a mente de Billy. Levando a um amadurecimento familiar quando eles se vêm com a necessidade de se confrontar com a dor da verdade que estava oculta nas relações da família e a repercussão das faltas e das negligências acometidas. Através deste diálogo que Billy consegue entrar em contato com o sentimento que tem pelo pai possibilitando também com que Blue tente retomar a relação.  

Muitas vezes, quando acontecem situações familiares marcadas por injustiças e falhas, há possibilidades de cura e da construção de formas mais satisfatórias de se relacionar. Esse filme é capaz de mostrar essa probabilidade latente.

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Cinthia Regina Moura Rebouças, psicóloga, CRP 23/001197, atende em consultório particular, adolescentes e adultos, com ênfase psicanalítica, em Palmas-TO. Possui MBA em Gestão de Pessoas (FGV), experiência como Docente do Curso de Gestão de Recursos Humanos, trabalha na interseção entre psicanálise e Trabalho. Tem experiência em trabalho com grupos, Avaliação Psicológica, na área Organizacional e na Condução de processos de Orientação Profissional.
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Amor Garantido – os dilemas de se conhecer alguém em aplicativos e sites de relacionamento

11 de junho de 2021

 

Foto: Netflix / Amor Garantido / Divulgação.

Conhecer alguém não é fácil, não é à toa que tantas pessoas recorrem a aplicativos e sites de namoro para tentar encontrar alguém online. No filme “Amor Garantido” (2020) é nessa busca por encontrar um novo amor que Nick fez seu cadastro no site de relacionamentos Amor Garantido, que promete que você encontrará o amor em até mil encontros. Porém, após 986 encontros, Nick já não tem mais tantas esperanças e decide contratar a advogada Susan Whitaker para processar o site pela propagada enganosa.

A princípio, Susan fica com o pé atrás de aceitar o caso, já que parecia que ele apenas estava tirando proveito de uma brecha para ganhar dinheiro em cima da empresa dona do site. Mas, por ter poucos clientes pagantes e muitos clientes pro bono (pelo bem público, que geralmente são gratuitos ou a baixo custo), vê a oportunidade como uma forma de propaganda do próprio trabalho e de ter renda para sustentar seu escritório.

Incentivada pelos seus funcionários, Susan tem um perfil criado no site e vai a três encontros para fazer uma pesquisa para o caso, conhecendo como o site e os encontros funcionam. Além disso, entrevista algumas das mulheres com quem Nick saiu para saber se realmente aconteceram os encontros, como foram e se Nick de alguma forma estava dificultando que os encontros fossem bem. 

Durante essa investigação para montar seu caso, Susan acabou descobrindo os desafios de se encontrar alguém em sites de relacionamento. Há pessoas que não são parecidas com suas fotos de perfil, gerando uma decepção quando vemos pessoalmente. Há também quem parece ser interessante no perfil, mas pessoalmente percebemos outros pontos que desfavorecem a manutenção do interesse no outro, como a conversa não desenvolver bem, o estilo de vida da pessoa ser diferente do nosso ou podem haver algumas manias que a outra pessoa tenha que são difíceis de tolerarmos.

Além disso, nos sites e aplicativos de relacionamento encontramos pessoas com vários objetivos: tem pessoas interessadas apenas em conversar, tem quem queira uma companhia momentânea ou apenas um único encontro, algo casual, e há até mesmo quem esteja por estar, chegando a marcar de encontrar e não apareça. Em contraponto, há quem procure um relacionamento sério, uma companhia interessante para manter contato, mesmo que não queira rotular a relação, ou está em busca de achar o amor de sua vida. Ou seja, há diversas posturas e expectativas ali, reunidas em um único lugar ao alcance de um dedo, e com uma variedade de opções e de informações preliminares maiores do que um ambiente presencial pode oferecer para se conhecer alguém.

Com a questão da pandemia e da necessidade de distanciamento social, a busca por encontrar pessoas nesses locais se tornou mais viável do que encontrar presencialmente em algum lugar. Acaba que a função desses aplicativos se tornou o recurso disponível mais fácil para conhecer gente nova. Contudo, continuamos esbarrando em algumas dificuldades que sempre existiram nessa forma de se conectar com novas pessoas.

Sem termos muitas “referências” sobre com quem estamos conversando, ficamos à mercê da fantasia que criamos sobre a pessoa com quem rolou o match. Será que o match vai virar uma conversa? Será que a conversa vai sair do aplicativo de relacionamento e ir para outra rede social? Será que vale a pena marcar de encontrar pessoalmente? Será que me exponho a algum risco em sair com essa pessoa? Dúvidas que são normais ao se fazer uso desses aplicativos e sites, e geram muitas expectativas, muitas sem condições de serem cumpridas.

Bem, aplicativos e sites de relacionamento são um meio, assim como vários outros que existem para se conhecer alguém. O importante é refletir sobre a questão que é levantada ao se levar o caso de Nick a julgamento, não há como se garantir que vamos achar o amor, não importa qual meio se utilize para conhecer alguém. O mais importante é estar aberto a conhecer, pois pode ser que em um desses aplicativos e sites você encontre a pessoa com quem você quer casar (como existem várias histórias por aí...), mas pode ser que você encontre seu interesse amoroso em outro lugar. 

Além do mais, pode ser que você prefira um auto investimento e não um investimento no outro, optando pela solteirice. Quando se fala em amor, às vezes é mais importante pensar se você quer encontrar alguém ou se você está bem só. Afinal, procurar alguém por dependência emocional é preocupante e pode conduzir a relacionamentos pouco saudáveis. Por isso, é importante desenvolver autoconhecimento para saber escolher o que você quer e que tipo de pessoa você quer ao seu lado, caso decida que quer um relacionamento. 

A jornada de Nick e Susan no filme nos mostra que não, não é possível garantir que uma pessoa vá encontrar o amor. E também nos mostra que os sites e aplicativos de relacionamento apenas reproduzem o que já se existia no mundo físico: haverá encontros bons e encontros ruins; pessoas que não querem nada com a gente; pessoas que vão querer estar com a gente, mas que não nos interessaram; ou que no primeiro encontro já percebemos que tem pensamentos muito diferentes dos nossos. O importante é saber o que se quer e ter paciência nessa busca. Vai que no próximo deslize do dedo não encontramos o que estamos procurando?

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Sheila Francisca Machado reside em Brasília, é psicóloga clínica, especialista em psicologia clínica e especializada em avaliação psicológica, CRP 01/16880. Atende adolescentes e adultos na Clínica de Nutrição e Psicologia - CLINUP. Atua com a abordagem Análise do Comportamento.
Contato: sheila_machado_@hotmail.com
Clínica Clinupclinup.blogspot.com
Instagram@empqnasdoses
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Meu Pai e os papéis de cuidado e de cuidador

4 de junho de 2021

 

Foto: California Filmes / Meu Pai / Divulgação.

Meu Pai (2020) é um filme que nos traz duas perspectivas ao mesmo tempo, vemos Anthony, um senhor de 81 anos, convivendo com os sinais de sua demência e Anne, sua filha, tentando encontrar a melhor forma para cuidar dele. Nos primeiros minutos do filme conhecemos os dois quando Anthony coloca mais uma cuidadora para correr de sua casa e Anne informa que irá se mudar para Paris e que para ele continuar em seu apartamento em Londres precisará aceitar um novo cuidador. 

A partir daí vemos acontecimentos passados e presentes se misturando. Anthony nem sempre reconhece a filha, o lugar em que está e constantemente pergunta pela filha mais nova que diz ter tempo que não a vê. Por outro lado, Anne se sente triste quando o pai não a reconhece, pela forma agressiva que as vezes ele trata ela e outras pessoas, e por não saber mais se ainda dá conta de cuidar dele em casa ou se dá o braço a torcer a recomendação médica e coloca ele em uma casa de repouso.

Anthony não quer deixar seu apartamento, que ele comprou a cerca de 30 anos, e sente falta de itens que não estão mais lá ou da decoração diferente que encontra na casa da filha quando passa a morar com ela. O esposo de Anne até tenta ser compreensivo com ela, mas tem dificuldade de lidar com o sogro que se fixa em detalhes aparentemente irrelevantes, frequentemente esquece quem ele é ou o confunde com o ex-esposo da filha.

A casa da filha parece girar sua rotina de acordo com as necessidades de cuidado com o pai. Durante o dia Anthony fica com a cuidadora, mas a noite a responsabilidade do cuidado com ele é de Anne, que acaba vivendo para trabalhar e cuidar do pai. Por conta da demência, que no filme não é dito qual o diagnóstico específico, Anthony em alguns momentos acaba sendo agressivo na forma de falar com Anne e tem dificuldade de reconhecer, na maior parte do tempo, o que a filha faz por ele.

Apesar da confusão mental, Anthony ainda consegue ter bons momentos, mesmo que raros, com a filha. Ele valoriza bastante o tempo e acaba fixado em seu relógio, que vive guardando e esquecendo que guardou. Fica achando que alguém roubou seu relógio, culpa as cuidadoras. Se alguém o acusa de ter esquecido que guardou o relógio, fica com raiva. Ele sempre teve uma boa memória, como poderia agora estar esquecendo de tudo? Ainda mais de seu precioso relógio?

A situação que os dois vivem é complicada para ambos os lados. Para quem está sendo cuidado é difícil entender que precisa desses cuidados. Para alguém que sempre foi ativo e independente, com uma boa memória, é difícil não se lembrar e não se vê capaz de pequenas e simples atividades. O tempo que tanto era valorizado, é um sofrimento não conseguir mais acompanhar, perdido se é manhã ou se é noite. É difícil esquecer pessoas queridas, ver rostos estranhos quando esperava ver alguém conhecido. Ainda é complicado estar fixado em momentos do passado como se tivessem acontecido agora a pouco. A perda da autonomia e do direito de fazer as próprias escolhas é sofrido.

Para quem é o cuidador, há várias emoções e sentimentos misturados em acompanhar quem precisa de cuidados. A pessoa querida começa a apresentar um comportamento diferente e a contar repetidamente histórias do passado ou que nunca aconteceram. As vezes se vê precisando de dar cuidados básicos, como ajudar a trocar de roupas, convencer a tomar a medicação, explicar para a pessoa que ela já comeu, só que esqueceu, entre tantos outros que vão sendo necessários à medida que quem precisa de cuidados vai diminuindo suas capacidades. 

É comum o cuidador sentir cansaço, tristeza, frustração, impaciência, raiva, pena, impotência, medo do por vir e de não ser capaz de passar pelos desafios. A pessoa que o cuidador conheceu sua vida toda não é mais a mesma. Dependendo do quão comprometida já está, as vezes se torna até difícil para o cuidador olhar e reconhecer o ente querido como ainda sendo o dono daquele corpo.

É nessa mistura de sensações que vemos Anne confrontando suas limitações em relação ao cuidado com o pai, sendo levada a ter que tomar a difícil decisão de onde deixa-lo. Seria deixar o pai morar no próprio apartamento que comprou há 30 anos? Teria ela condições de leva-lo para morar permanentemente com ela? Será que a médica estava certa em recomendar a casa de repouso? O que seria o certo enquanto filha que se preocupa com o pai? Que culpa irá carregar pela decisão que tomar? Decisão difícil que não cabe julgamento de ninguém, nem da própria Anne. Afinal, o cuidador está dando o seu melhor dentro de suas próprias limitações e, no caso do filme, Anne aparece como a única pessoa na rede de apoio de Anthony, não tendo com quem dividir os cuidados a não ser profissionais cuidadores.

A situação em que Anthony e Anne se encontram é desafiadora e necessita de muita compreensão e empatia da parte dos que convivem com eles. A vida de quem precisa de cuidados e de quem é cuidador tem vários desafios e emoções envolvidas nas nuances do dia a dia. Aceitar que precisa de cuidados é difícil, assim como aceitar a posição de cuidador tem seu lado bonito e seu lado cansativo e de conflitos. Ambos os papéis exigem a necessidade de cuidados com a saúde, para o cuidador ter saúde e para quem necessita de cuidados ter qualidade de vida dentro do que ainda tem condições de viver.

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Sheila Francisca Machado reside em Brasília, é psicóloga clínica, especialista em psicologia clínica e especializada em avaliação psicológica, CRP 01/16880. Atende adolescentes e adultos na Clínica de Nutrição e Psicologia - CLINUP. Atua com a abordagem Análise do Comportamento.
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Operação Supletivo - Agora Vai! e a luta contra a dificuldade escolar

28 de maio de 2021

Foto: Universal Pictures do Brasil / Operação Supletivo - Agora Vai! / Divulgação.


 Em “Operação Supletivo – Agora Vai!” (2018), começamos o filme acompanhando Teddy se preparando para fazer a prova final do Ensino Médio. O problema é que Teddy não é um aluno de boas notas, ao contrário, notas vermelhas é o que ele mais tem. Seus pais, na tentativa de incentivá-lo a estudar, o comparam com sua irmã gêmea que tem ótimas notas, o que não ajuda nem um pouco Teddy a se sentir capaz de fazer a prova. Teddy e todos a sua voltam o veem como uma pessoa preguiçosa e incapaz.

No dia da prova, Teddy está nervoso e percebe alguns olhares de colegas da turma. Na hora que autorizado a começar a prova vem um baque: as questões parecem saltar da página e o atacar, embaralhando números, letras e palavras. Teddy começa a lutar contra esse ataque, mas decide gritar sua derrota: levanta da cadeira, grita em meios aos colegas que suas notas não o definem e que estava abandonando a escola. Vemos ali um problema que até hoje acontecem em vários lugares do mundo: a evasão escolar no ensino médio.

Teddy era bom nos esportes, tinha uma boa desenvoltura social, mas não lidava muito bem com o tipo de inteligência que é normalmente valorizado e ao qual a escola se dedica a avaliar como o principal para se ser ensinado: o raciocínio verbal e o raciocínio matemático. Por mais que atualmente busque-se valorizar também outros tipos de raciocínio, o foco escolar é em um ensino ainda tradicional voltado principalmente ao raciocínio verbal e matemático. Esse sistema favorece quem tem mais facilidade com esses tipos de conteúdo e quem tem uma boa capacidade de memorização, sendo deixa em segundo plano o raciocínio crítico, artístico, social, entre outros. 

Além do mais, na escola conteudista padrão os alunos são vistos de forma homogênea. A quantidade de conteúdo da grade curricular dessas instituições de ensino visa muito mais preparar o estudante para a prova do vestibular do que preparar para a vida. Essa busca das instituições em cumprir com uma ampla carga de conteúdo, que também visa atender a expectativas dos pais e responsáveis, acaba atrapalhando um olhar mais individual sob cada aluno. O aluno que não dá conta da quantidade de conteúdo passado acaba sendo deixado em segundo plano. Isso atrapalha o encaminhamento a avaliações de profissionais que seriam capazes de identificar dificuldades de aprendizagem. Com isso, a escola não tem espaço para todos e muitos Teddys estão espalhados por aí. 

17 anos depois, acompanhamos Teddy como um ótimo vendedor. Sua desenvoltura social e habilidades de comunicação o auxiliam em seu trabalho. Seu chefe deu uma chance a ele mesmo sem ter o diploma de ensino médio. Além disso, namora com uma mulher vista como bem-sucedida e estudada, com uma renda superior à sua. Assim, Teddy faz de tudo para impressioná-la, mesmo que isso signifique viver uma vida financeira que ele mesmo não é capaz de arcar e fingir que concluiu o ensino médio. Se tornou um adulto com baixa autoestima, que busca a todo custo agradar as pessoas mais próximas e provar para a sociedade que é bem-sucedido.

Após um acidente na loja, Teddy fica sem emprego e para conseguir um bom novo emprego é obrigado a fazer supletivo. Então, retorna para escola em que estudava para se matricular no supletivo, mas tenta usar sua lábia para conseguir o diploma sem precisar de estudar, porém, sem sucesso. Se vê em uma sala com outras pessoas que também tem suas dificuldades e com uma professora jogo duro, disposta a fazer com que todos aprendam.

Contudo, Teddy ainda quer procurar atalhos. Voltar a estudar o colocou a frente de letras e números que o atacam sem pensar duas vezes. Podemos ver em vários momentos do filme uma ilustração do que é para uma pessoa, que como o Teddy, tem alguma disfunção de aprendizagem. Quando há algum problema de processamento da informação, as palavras podem não fazer sentido, ou a sequência de palavras parecem se embaralhar na sua frente. Letras e/ou números podem aparecer trocados, o que dificulta ainda mais o entendimento correto do que está sendo pedido. Uma frase que parece simples para muitos, para quem tem dificuldade parece estar o atacando.

E assim como Teddy, vemos vários adolescentes e adultos que sentem vergonha de admitir que não entenderam o que leu, que algo que foi dito parece confuso, se sentem incapazes de aprender, pois a escola ensina de um jeito que eles não entendem. Muitos chegam a concluir o ensino com muita dificuldade, chegam a faculdade e conclui com notas medianas. Outros desistem de tentar, sem nem mesmo investigar o porquê de estar com a dificuldade. O tempo que passam na escola dedicam mais a outras atividades que não sejam aprender o conteúdo das aulas, como socializar com os amigos, tentar se dedicar a artes, música ou aos esportes. Em sala, muitos dormem, fazem piadas ou ficam de conversa paralela, sendo vistos como alunos problemas. Permanecem incompreendidos em suas incompreensões. Se tornam adultos com baixa autoestima e estigmatizados pelo passado escolar e envoltos de uma nuvem de julgamentos que ouviram durante muitos anos da vida e que agora fazem a si mesmos.

Mas há várias formas de se ensinar e de se apreender. Pode-se buscar escolas com métodos diferentes, há a opção de aulas de reforço individuais, que tenham um método que se adeque a forma de aprender do aluno, e ir atrás de investigar o que pode estar comprometendo a aprendizagem. No filme, Teddy acaba descobrindo já adulto que tem dislexia, discalculia e disfunção do processamento das informações! E sua ansiedade na hora das avaliações pioravam a situação, terminando de tirar seu foco das perguntas. 

Por ser um filme de comédia, claro que o método usado pela professora para fazê-lo aprender tem apenas uma função cômica. Entretanto um professor que compreenda a situação e tente adequar o ensino ao aluno faz toda a diferença, mesmo que sejam ajustes pequenos em sala e recomendações de acompanhamentos extraclasse. Então, antes de se julgar incapaz tente se entender. Ao invés de julgar os outros, tente ajudar. O aluno problema é alguém com alguma dificuldade, que nem sempre os professores serão capazes de descobrir. Mas todos temos nossas habilidades e potenciais. Para poder aproveitá-las ao máximo, as vezes precisamos deixar a vergonha de lado e admitir nossas limitações para buscar ajuda. E precisamos aprender que toda habilidade tem seu valor.

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Sheila Francisca Machado reside em Brasília, é psicóloga clínica, especialista em psicologia clínica e especializada em avaliação psicológica, CRP 01/16880. Atende adolescentes e adultos na Clínica de Nutrição e Psicologia - CLINUP. Atua com a abordagem Análise do Comportamento.
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A Mulher na Janela, entendendo a angustia do pânico e da agorafobia

21 de maio de 2021

 

Foto: Netflix / A Mulher na Janela / Divulgação.

O suspense “A Mulher na Janela” (2021) nos conta um pouco sobra a história de Anna Fox, uma mulher que tem enfrentado alguns problemas psicológicos. Ao que parece pelos primeiros momentos de filme, seu psicólogo está precisando fazer os atendimentos de Anna em seu domicílio, já que ela não está conseguindo sair de casa. Presa em casa, é questionada por seu psicólogo pela obsessão que começou a desenvolver em acompanhar a vida de seus vizinhos pela janela de sua casa. E é vendo o que se passa na casa dos Russell em uma noite que todo o mistério que tenta entender acontece.

Pelo que ficamos sabendo durante o filme, Anna trabalha há 15 anos como psicóloga infantil, mas no momento está tendo que lidar com seus próprios problemas. Está separada do esposo e da filha, em uma crise depressiva e ansiosa. Tenta lidar com a ausência de sua família através do abuso do uso de álcool, que acaba sendo misturado com os remédios psiquiátricos que toma. 

Apesar de saber que não é aconselhável misturar os remédios psiquiátricos e álcool, já que o álcool pode interferir nos efeitos da medicação, não se importa com o que vá acontecer, quer apenas anestesiar sua angústia. Quando tenta sair de casa, tem ataques de pânico só de pensar em colocar os pés do lado de fora. Sua dificuldade em interagir com o mundo do outro lado da porta é parte de seu quadro de agorafobia, que nada mais é do que o medo de se expor a situações que possam causar medo ou ansiedade, como sair de casa só, estar em espaços abertos ou fechados, ou estar em meio a uma multidão.

Seu psicólogo vê o interesse de Anna em vigiar a vida dos vizinhos como uma evolução em seu caso, já que é uma forma de expressar interesse no mundo que existe do outro lado de sua porta, o que poderia ser um primeiro passo para que ela criasse a coragem para colocar os pés fora de casa. Mas sair de casa para Anna é difícil. Por conta de seu quadro psicológico, está sempre em alerta. E o clima de suspense do filme traduz bem o estado de alerta de quem está passando pelo mesmo que ela. Anna perde a noção de tempo e espaço, está sempre preocupada com o que possa acontecer e acaba se fixando no que vê por sua janela.

O primeiro Russell que Anna tem contato é Ethan, um jovem de 15 anos que aparece meio amedrontado na porta de sua casa para dar uma vela. Anna vê nele sinais de convívio com um pai abusivo. Depois conhece a mãe de Ethan, que parece ser bem comunicativa e divertida. Por fim, conhece Alistair Russell, o pai da família, que vem falar com ela em sua casa de forma intimidadora para saber se ela está tendo contato com sua família. Com base no que conheceu e no que via por sua janela, Anna começa a criar suspeitas sobre o que acontece na casa daquela família e do perigo que alguns de seus membros possam estar correndo.

Sua fixação na família Russell a faz ter atitudes duvidosas, que fizeram os outros e até ela mesma questionar sua sanidade mental. Estaria ela ficando louca? É tudo culpa de estar longe de sua família? Os remédios podem estar fazendo com que ela alucine? Será que realmente ela precisa estar alerta o tempo todo? O álcool misturado com a medicação poderia estar causando tudo isso? Para Anna, sua percepção do mundo estava a cada dia mais questionável, já que um pequeno barulho dentro de casa já estava deixando-a em alerta com medo do que poderia ser. Então o que viu em sua janela poderia ser coisa de sua cabeça.

Pessoas que passam por ataques de pânico comumente tem várias dúvidas acerca do que estão sentindo e vivendo. A realidade, e até mesmo a autoimagem, passa a ser questionada pela própria pessoa e pelos outros. Atividades simples do dia a dia passam a ser vistas como extremamente difíceis e como fonte de angústia. Por medo de ter um ataque de pânico, muitos limitam os lugares por onde circulam, ou mesmo se confinam em casa, sentindo uma ansiedade por medo de ter uma crise de ansiedade. Não é ao acaso que a agorafobia pode estar associada, sendo mais um agravante do caso.

Pela alteração da percepção dos estímulos e da passagem do tempo, muitos se sentem presos em uma situação que parece que nunca vai passar. Isolados do mundo, há aqueles que tem pensamentos de morte antes ou na saída de quadros graves. O momento que ainda se tem forças ou que se recupera as forças para lutar contra os sentimentos angustiantes é decisivo na recuperação. É nesses pontos que é possível despertar o interesse pela vida, pelo o que acontece fora de si, sendo um fator que ajuda a dar o primeiro passo para retomar a vida.

Para Anna, retomar a própria vida era resolver o mistério do que havia acontecido na casa da frente. Isso foi o que a fez sair de casa pela primeira vez em muito tempo, a querer ajudar alguém e a admitir que a situação na qual estava vivendo não estava lhe fazendo bem. Tanto que dizer isso em voz alta seria aceitar que algo em sua vida precisava mudar. A importância da terapia nesses casos está na elaboração da aceitação do que se vive, da falta de controle que temos sobre certas situações e de que, mesmo assim, ainda temos a possibilidade de mudar o rumo de nossas vidas, recuperando a vontade de viver.

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Sheila Francisca Machado reside em Brasília, é psicóloga clínica, especialista em psicologia clínica e especializada em avaliação psicológica, CRP 01/16880. Atende adolescentes e adultos na Clínica de Nutrição e Psicologia - CLINUP. Atua com a abordagem Análise do Comportamento.
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A Corrente do Bem (2000)

14 de maio de 2021

 

Foto: Warner Bros. / A Corrente do Bem / Divulgação.

"A Corrente do Bem" (2000) é uma história de aventura moral sobre um menino de 11 anos, Trevor McKinney (Haley Joel Osment), que inicia um projeto maravilhoso de praticar e espalhar a bondade e a compaixão para os outros. Ele mora com sua mãe Arlene (Helen Hunt), uma alcoólatra em recuperação que trabalha muito em dois empregos para sustentar o filho, mas sente que é uma batalha perdida.

As coisas começam de maneira simples: é o primeiro dia de aula na sétima série e Trevor McKinney, se encontra cara a cara com a realidade do ensino fundamental em Las Vegas. E seu ânimo para com a sétima série melhora quando conhece Eugene Simonet (Kevin Spacey), seu novo professor de Estudos Sociais. Ele é um tipo de educador desafiador e não convencional, e não são apenas as marcas de queimadura em seu rosto que o tornam diferente - ele não quer apenas que seus alunos aprendam o básico sobre sua matéria, ele quer prepará-los para enfrentar a vida. Simonet oferece a seus alunos um projeto de crédito extra: "Pense em uma ideia para mudar nosso mundo e coloque-a em ação", e enquanto o resto da classe tem dificuldade em olhar além do rosto com cicatrizes graves do professor, Trevor percebe que agora ele tem uma aventura moral e pensa em algo extraordinário que ele chama de “A Corrente do Bem".

A ideia de Trevor é simples, ele fará uma boa ação ou um ato de gentileza para três pessoas, algo que elas não podem fazer por si mesmas, e a única coisa que ele pede é que cada uma daquelas pessoas “pague adiante”, fazendo grandes favores igualmente difíceis para outras três pessoas. Apesar de ser criticado por acreditar numa “ideia excessivamente utópica”, ele deu início ao seu movimento para provar que o mundo poderia mudar e que a ideia de utopia não deveria ser vista como uma realidade tão distante. Assim, ele ajudou um sem teto oferecendo-lhe uma refeição e lugar para dormir, o próprio professor Eugene e um amiguinho da escola que era importunado por valentões.

O filme tem um foco dividido, entrelaçando linhas do tempo para contar a história de Trevor e a do movimento que ele fundou. O ramo principal da Corrente do Bem é um relato cronológico de como o menino de 11 anos desenvolve e tenta implementar sua ideia radical, e o resto do filme se passa quatro meses no futuro, seguindo a investigação de Chris Chandler (Jay Mohr), um repórter, sobre vários atos de bondade que andavam acontecendo em forma crescente. Ele segue uma trilha que vai de Los Angeles a Las Vegas, encontrando vários adeptos da filosofia da Corrente do Bem. Eventualmente, conforme o filme se aproxima de sua conclusão, o primeiro período de tempo alcança o segundo e eles se fundem.

Este filme inspirador e imaginativo é baseado em um romance homônimo de Catherine Ryan Hyde. Fala diretamente do maior problema social e desordem de caráter de nossos tempos - a incivilidade, onde cada um não consegue olhar além do próprio umbigo e pequenos atos de gentileza, ao que parece, são coisas raras. E para ser justa, o filme não é todo luz e impulsos de bem-estar, nele há sombras e lágrimas à espreita, também, mas a mensagem geral é de esperança e otimismo neste mundo onde a crença de que a humanidade pode ser redimida não é uma noção popular atualmente, especialmente considerando as centenas de atrocidades que se repetem todos os dias em todo o mundo.

Você acha que o movimento iniciado por Trevor poderia funcionar no mundo real? Pessoalmente, não sei se em uma escala ampla, mas uma questão interessante a se ponderar é: e se você fosse confrontado com um ato aleatório de bondade, estaria disposto a manter o pacto e passar adiante este ato de gentileza? Dar uma resposta honesta pode exigir mais exame de consciência do que muitos de nós se sentiriam confortáveis em fazer. 

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Wilgna Maria Melo Costa, CRP - 22/02863, Psicóloga, especializada em Avaliação Psicológica e Psicodiagnóstico, com curso de extensão em TDHA e Desenvolvimento Humano. Atua com base na Terapia Cognitivo Comportamental e oferece atendimento para todas as idades.
Instragram: @wilgnamelo

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Alma da Festa, a reinvenção de si mesma e a maternidade em tempo integral

9 de maio de 2021

 

Foto: Warner Bros. Pictures / Alma da Festa / Divulgação.

Quem gostaria de ir a uma festa universitária levando a mãe? Pois bem, isso é algo que Maddie precisou superar em “Alma da Festa” (2018). Maddie está no último ano de faculdade e seus pais a deixaram no campus para iniciar esse último ano. Antes de sair do campus, sua mãe Deanna recebeu um comunicado breve e rápido do esposo dentro do carro quando só os dois já estavam ali. Deanna estava empolgada com uma viagem para Itália que eles haviam programado para os próximos dias, quando Dan solta a bomba: ele quer o divórcio, pois se apaixonou por uma corretora de imóveis bem-sucedida e mais bonita que ela. Deanna fica sem chão.

Deanna é uma mãe e esposa em tempo integral, uma mãe e esposa que fica em casa, alguém que se dedica exclusivamente ao cuidado da casa, dos filhos e do esposo, papel também chamado por algumas pessoas de “dona de casa” ou “do lar”. Por não ser uma atividade financeiramente remunerada, é um papel social pouco valorizado pela nossa cultura e sociedade, sendo visto como algo fácil ou como fazer nada o dia todo. Mas, se fosse contratar profissionais para realizar essas atividades, teriam direito a um salário, carga horária bem definida e direitos trabalhistas – direitos e benefícios que a mãe e/ou esposa em tempo integral não tem –, sendo talvez necessário contratar mais de uma pessoa a depender da quantidade de pessoas e do tamanho da casa. Quando é realizado pela mulher na condição de esposa e/ou mãe, não tem um status de emprego, então não é visto como uma atividade economicamente lucrativa.

Quando decidiu cuidar da filha e se casar com Dan, porque ficou grávida no último ano de faculdade, Deanna combinou junto com Dan que ele iria terminar a faculdade e investir na carreira, já que seria economicamente inviável os dois terminarem juntos a graduação. Enquanto não retornasse a faculdade, Deanna iria se dedicar ao cuidado da filha e da casa. 

Assim os anos foram passando, Dan foi se estabelecendo profissionalmente, Maddie foi crescendo e a faculdade de Deanna foi deixada de lado. Muitas mulheres ao assumirem esse papel social, ficando responsáveis pela casa e pelos filhos, dão espaço para o desenvolvimento profissional do esposo, assim ele passa a estar livre para novos estudos, cargos de chefia e até mesmo abrir um próprio negócio. Contudo, nem todos conseguem perceber os sacrifícios que são feitos ao se tomar a decisão de ficar dedicada ao que acontece dentro de casa, dando suporte ao desenvolvimento do cônjuge e dos filhos.

Deanna, mesmo com o pedido de divórcio, não se arrepende de sua decisão, principalmente ao ver a pessoa que a filha se tornou. Porém, gostaria de ter tido a oportunidade de terminar a faculdade e ter trabalhado fora de casa. Com isso, sua decisão após o divórcio é voltar para a faculdade e cursar o último ano. Vê em Maddie e suas amigas de irmandade um ponto de suporte para isso. Maddie estranha, afinal, é a mãe dela, não quer passar vergonha perto da mãe e nem ser envergonhada por ela. Já suas amigas parecem gostar da presença de sua mãe, pendem conselhos, conversam e a carrega para as festas universitárias. Pouco a pouco Maddie vai se acostumando, mesmo sem querer saber muitos detalhes das aventuras da mãe.

Deanna também não quer que a filha passe vergonha, por isso tenta balancear os estudos com as festas. Nas festas, dança, bebe e se diverte andando com a filha e as amigas. Sua casa no momento é o alojamento da universidade, com uma colega de quarto um pouco diferente do que ela está acostumada. Acaba dividindo seu tempo entre a biblioteca e a casa da irmandade, fazendo parte do grupo de amizades, mesmo sem ser uma integrante oficial da casa. Juntas, todas se apoiam para superar dificuldades, manter o foco e se divertir, é claro. Deanna teve a oportunidade de ter a experiência universitária que ela queria e de se reinventar, rejuvenescer sua alma e conhecer pessoas que a acolheram e deixaram ela ter o direito de ter o próprio espaço.

Ser esposa e mãe em tempo integral é um grande desafio. É um trabalho sem fim, que se deixar a pessoa acorda e dorme indo arrumar a casa, os filhos e o esposo. Escolher exercer esse papel na sociedade é um direito da mulher, pois em alguns casos é o que ela gosta de fazer. Já em outros é porque financeiramente é mais dispendioso sair de casa para trabalhar e ter que contratar uma funcionária doméstica, pagar uma creche, uma van escolar, entre outros, a depender do valor de salário que algumas atividades de trabalho oferecem. 

Há vários motivos que fazem as mulheres optarem por essa dedicação exclusiva ao lar. O importante é ainda que dedicadas integralmente ao lar lembrem-se de cuidar de si também, de seus sonhos e desejos. Os filhos uma hora crescem e não precisam mais de tantos cuidados. O esposo uma hora aposenta, pede divórcio ou pode falecer, e o cuidado com a casa será diferente.

Deanna se viu sem ter de quem cuidar e acabou cuidado e sendo cuidada pelas amigas da irmandade e a filha. Viveu experiências que não imaginava e descobriu que podia contar com antigas e novas amizades. Algo que para ela mais parecia uma crise de meia idade, acabou se tornando uma experiência inesquecível. A sociedade precisa aprender a valorizar essas mulheres que trabalham e muito, abdicam de muitas coisas para ser o suporte que impulsiona e apoia o crescimento de cada membro da família. Mulheres com sonhos, desejos e vontades! Muitas se sentem realizadas em serem dedicadas ao lar! Reconhecer o que elas fazem é dar a elas o direito de ter saúde, física e mental.

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Sheila Francisca Machado reside em Brasília, é psicóloga clínica, especialista em psicologia clínica e especializada em avaliação psicológica, CRP 01/16880. Atende adolescentes e adultos na Clínica de Nutrição e Psicologia - CLINUP. Atua com a abordagem Análise do Comportamento.
Contato: sheila_machado_@hotmail.com
Clínica Clinupclinup.blogspot.com
Instagram@empqnasdoses
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Se algo acontecer... Te amo (2020)

7 de maio de 2021

 

Foto: Netflix / Se Algo Acontecer... Te amo / Divulgação.

A maternidade e a paternidade podem chegar na vida de uma pessoa de diversas formas, às vezes planejada, outras vezes de surpresa, mas, independentemente da forma que ela chegue, ela é transformadora. 

Filhos, por menores que sejam, têm a capacidade de ocupar espaços que as mães e os pais nem sabiam que tinham para serem ocupados: choro na madrugada, gargalhadas nas primeiras horas da manhã, coisas espalhadas pela casa, barulho, cantigas... Detalhes que sobrecarregam a vida de contas a pagar, de trabalho, de dores, de cansaço, de cores, de cheiros, de sabores, de sons, de alegrias, de movimento. Um misto de emoções e sentimentos que a sabedoria popular traduziu no jargão: "ser mãe é padecer no paraíso". 

Por mais desafiador que seja ser mãe ou pai, a maior parte desses cuidadores genitores não mudariam essa condição. Entretanto, às vezes essa condição é modificada por uma situação que lhes foge ao controle. Na semana do dia das mães de 2021, o Brasil se chocou com um atentado em uma creche em Santa Catarina que resultou na morte de três bebês e duas mulheres. Tragédia essa que modificou famílias e as obrigou a ficarem face a face com a dor do luto. 

O curta-metragem da Netflix "Se algo acontecer... Te amo" (2020) retrata de forma sensível o luto de um casal que perde sua filha em um tiroteio na escola. Através de uma animação sem falas, o vazio do luto é desenhado, sem cores, sem cheiros, sem sons, com o movimento arrastado pela necessidade ausente do desejo, mas carregada de dor, de cansaço e de falta. 

O luto é carregado de falta que precisa ser simbolizada, ressignificada. A falta da mãe e do pai que perde um filho é tão profunda que a nossa cultura ainda não conseguiu nomear. O filho que perde os pais se torna órfão, mas não existe nome para os pais que perdem os filhos. Maternidade e paternidade são uma condição perpétua, mesmo que dos filhos sejam retirados presente e futuro. 

Às vezes a vivência da perda é muito intensa, e existe um sentimento de que a dor nunca vai passar. Em situações assim, pode ser importante ter o acompanhamento de um profissional de psicologia para auxiliar no enfrentamento do luto.

Com o passar do tempo, as memórias de vida são ressignificadas, as vivências de vida e morte simbolizadas e a dor da perda dá lugar à saudade. A falta vai estar sempre ali, mas a saudade vai permitir que ela viva junto ao desejo e que a vida pulse nos que ficam, iluminada pelas boas lembranças de quem não está mais presente.

As mães e pais que perderam seus filhos continuam sendo mães e pais. A mudança de papel e de vida que os filhos trouxeram para suas vidas modificaram para serem quem eles são. 

Um feliz dia das mães para todas as mães, para as que tem o privilégio do filho presente e para aquelas que tiveram o presente de poderem ser transformadas por seus filhos, mesmo que por um intervalo pequeno de tempo.

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Alyne Farias Moreira, brasiliense do quadradinho, mas refugiada entre a beira do Araguaia e a sombra da Serra Azul. Mãe da Cora Linda, psicóloga, CRP 18/02963, equoterapeuta, professora e palestrante. Apaixonada pelo desenvolvimento humano e por psicanálise.  
Contato: (66) 99224-9686
Instagram@vir_a_ser_Alyne
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Incêndios (2010)

30 de abril de 2021

 

Foto: Happiness Distribution / Incêndios / Divulgação.

Julgar uma pessoa quando temos conhecimento de apenas uma parcela de sua história é ato corriqueiro, até automático. Quando essa pessoa tem um papel central em nossas vidas, como é o caso de nossos pais, é comum e até, pasmem, esperado.  

Na história de Incêndios (2010) não poderia ser diferente. A história da família de Nawal, mãe dos gêmeos Simon e Jeanne, é tão imersa em mistérios que os filhos não titubeiam em supor e criar resistências em relação a vida da mãe. Por desconhecerem seu passado, não conseguem compreender a forma da mãe pensar e acabam gerando mágoas dela.  

Ao compararem as ações da mãe real com as idealizações que ambos têm do que ela deveria ser, a subestimam e a colocam em papel inferior, como alguém que simplesmente é incompreensível e inadequada por não satisfazer o papel do qual eles consideram ser uma boa mãe.  

Nesta atmosfera que ambos os filhos de Nawal se deparam com pedidos que consideram estapafúrdios, ou típicos da mãe. Em cartas deixadas após sua morte, Nawal deixa a incumbência a Jeanne de entregar uma carta para o pai que nunca conheceu e solicita a Simon que entregue a dele para o irmão que nunca soube que tinha. Mesmo contrariados pelas cartas deixadas pela mãe, eles são encorajados a satisfazerem esses pedidos e, para isso, precisam se deslocar através de pistas de um passado já apagado. Há muito deixado para trás.  

Em meio a isso tudo, surgem conclusões a respeito da mãe que não se confirmam verdadeiras e eles precisam mergulhar em toda a história de vida de sua família. Enquanto Simon se revela reticente em navegar pelo passado da mãe, Jeanne não pensa duas vezes antes de embarcar em uma viagem sem volta e sem tempo de duração. Só através deste trajeto Jeanne pôde descobrir quem de fato foi sua mãe. Os gêmeos veem tudo aquilo que sabiam e pensavam sobre sua mãe virar fumaça e este sim é o incêndio que o título faz referência. 

Todos os não ditos e os segredos jogados embaixo do tapete emergem à tona e fazem os irmãos repensarem sua vida e a relação com a memória da mãe. Possibilitando várias reflexões, inclusive refletir que ao descolarmos um comportamento da história de uma pessoa, acabamos por reduzi-la a algo distante da realidade. Uma análise sem contexto é classificação e bem sabemos que grande parte das classificações servem para organizar, porém são superficiais. Um filho que não conhece a história de um pai não é capaz de entendê-lo. Podendo levar a pensar sobre questões relativas à nossa própria história, a origem, o poder da verdade, a ressignificação e reconstrução das histórias que contamos para nós. 

E aqueles que acreditam conhecer a história de qualquer outra pessoa ou as causas de seu comportamento, arrisco dizer que, dos outros apenas supomos. Mesmo com contexto, imagine sem! É necessário considerar que pais e mães também são pessoas que falham, magoam-se, erram e se arrependem. E que, na maioria das vezes, sabemos apenas um recorte da história daqueles que nos colocaram no mundo, temos acesso apenas a uma versão, a uma parte daqueles seres, apenas uma parte. Dependendo dessa versão teremos maior facilidade ou aversão de conexão com nossas raízes e conosco mesmos.

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Cinthia Regina Moura Rebouças, psicóloga, CRP 23/001197, atende em consultório particular, adolescentes e adultos, com ênfase psicanalítica, em Palmas-TO. Possui MBA em Gestão de Pessoas (FGV), experiência como Docente do Curso de Gestão de Recursos Humanos, trabalha na interseção entre psicanálise e Trabalho. Tem experiência em trabalho com grupos, Avaliação Psicológica, na área Organizacional e na Condução de processos de Orientação Profissional.
Acompanhe seu trabalho em:
Instagram: @empqnasdoses


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Nomadland – um filme para refletir sobre os caminhos da vida

23 de abril de 2021

 

Foto: Searchlight Pictures Disney / Nomadland / Divulgação.

Fern construiu uma vida com seu esposo Bo na cidade de Empire, Nevada. Bo trabalhou sua vida toda em uma fábrica de materiais de construção, a US GYPSUM. O casal morava em uma casa corporativa, viveram um para o outro, mas quando a empresa fechou a fábrica na cidade, a cidade morreu. Acompanhamos no início do filme Nomadland (2020) Fern se preparando para começar seu trabalho temporário na Amazon. Desde o fim da fábrica e a morte de Bo, Fern fica revezando em empregos temporários para sobreviver. No decorrer do filme vamos acompanhando sua vida como uma nômade nos Estados Unidos.

Fern tem a oportunidade de conhecer pelo caminho outras pessoas nômades. Cada um com seu motivo para estar vivendo assim. Uma de suas companhias no caminho é Linda May, que começou seu caminho em busca de uma forma mais barata de viver depois de se aposentar e não ter uma pensão que dava conta de sustentar seus gastos anteriores. Assim, Linda May optou por viver de uma forma mais economicamente sustentável como nômade. Para Fern não era tão diferente, ela gosta de trabalhar e não conseguiria viver da pensão caso tentasse se aposentar antecipadamente. Viver como nômade é o mais financeiramente viável em seu caso.

Fern já havia passado por muito empregos na sua vida, e vivendo como nômade tem a oportunidade de trabalhar em áreas diferentes, muitos desses serviços considerados braçais ou na área de atendimento ao cliente e serviços gerais. Fern não parece se importar com o que for fazer no emprego, está mais preocupada em ter um trabalho. Sua van passou a ser sua casa quando ela saiu de Empire e os lugares pelos quais estacionou lhe permitiu conhecer várias pessoas diferentes. Com isso, foi se apegando a nova casa sobre rodas que aos poucos foi deixando com a sua cara. 

Há quem estivesse na estrada por não ter para onde ir, há quem estivesse fugindo de um passado, bem como também havia quem estivesse ali para cumprir uma última aventura. Mas algo era inegável: todos ali tinham passados por perdas e arrependimentos. Fern se arrependia de ter vivido uma vida em uma única cidade e ainda sofre com a perda do esposo. Não está pronta para fazer vínculos duradouros, mas disposta a fazer vínculos profundos por pouco tempo. Estando na estrada teria a sua liberdade de ir e vir e sempre poderia reencontrar as pessoas queridas que conheceu.

Tanto Fern quanto outros nômades que aparecem no filme veem a estrada como sendo uma forma de ter liberdade, seja do que algum dia lhes prenderam em algum lugar, seja de pessoas que não estão por perto, mas sentem saudade, ou mesmo dos sonhos que deixaram para traz. Por isso, mesmo tendo oportunidade de se estabelecer em alguma casa, para Fern sua casa é sua van. Ela não consegue mais se vê dentro de uma casa com paredes e cercas que não seja a que ela viveu sua vida em Empire, nem quer se limitar a um único lugar quando pode ir e vir para onde quiser. O que lhe leva a desapegar de bens, objetos pessoais, pessoas, lugares e ideias que tinha sobre como a vida deve ser, sem desapegar de seus sentimentos e emoções em relação ao passado, presente e futuro. Fern ainda sofre por tudo aquilo que perdeu.

A jornada de Fern, de cidade em cidade, de emprego em emprego, é em busca por um sentido para sua vida. Um sentido que parece estar sempre na próxima cidade, no próximo emprego temporário, nas próximas pessoas que irá conhecer. Ficar parada em Empire não lhe garantiu uma felicidade eterna. Se manter em uma cidade não lhe garantiu a estabilidade de não precisar deixar a própria casa quando a cidade deixou de existir. O que ela perdeu junto com a cidade lhe tirou o sentido de ter um lugar fixo. E depender de alguém não é uma opção para ela. Uma coisa é trocar objetos com outros nômades, outra é se ver em uma situação em que dependa de outra pessoa para ter uma moradia com endereço fixo.

Nomadland (2020) é uma história sobre pessoas, suas lutas e o que querem deixar para traz para conseguir seguir em frente, criando assim seus próprios caminhos. Um filme que nos convida a reflexão sobre como estamos vivendo nossa vida e que marca queremos deixar no mundo, bem como a que estamos nos apegando e o que precisamos desapegar. Além disso, há várias questões sociais representadas, como as dificuldades financeiras, de assentamento e limitações de ações protetivas para pessoas em situação de vulnerabilidade.

As perdas e arrependimentos da vida podem nos fazer perder de vista quem somos. Onde vamos nos reencontrar? Vai depender de cada um! Para alguns, serão as pessoas que vão encontrar no caminho, para outros são os retornos a lugares que se sentem bem. Pode ser também o se encontrar novamente na própria família, talvez assumindo um novo papel. Há quem se sinta confortável por não se prender a lugar nenhum. Alguns caminhos encontramos por escolha, outros por necessidade. E você, quais caminhos gostaria de encontrar? O que precisa para conseguir seguir em frente? Quais perdas e/ou arrependimentos tem guiado suas escolhas? A que ou a quem tem se apegado? Que caminhos você tem construído? Essas reflexões trazem um autoconhecimento que faz toda diferença.

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Sheila Francisca Machado reside em Brasília, é psicóloga clínica, especialista em psicologia clínica e especializada em avaliação psicológica, CRP 01/16880. Atende adolescentes e adultos na Clínica de Nutrição e Psicologia - CLINUP. Atua com a abordagem Análise do Comportamento.
Contato: sheila_machado_@hotmail.com
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A Caminho da Lua – a superação da perda e a formação de uma nova família

16 de abril de 2021

 

Foto: Netflix / A Caminho da Lua / Divulgação.

No filme “A Caminho da Lua” (2020), Fei Fei era bastante feliz vivendo com seu Ba Ba e sua Ma Ma. Desde pequena ouvia sua Ma Ma contar a lenda da deusa Chang’e, que se separou de seu grande amor contra sua vontade e foi morar na lua sem nunca deixar de amá-lo. Fei Fei via em seus pais a personificação do amor verdadeiro, enquanto juntos faziam os bolinhos da lua vendidos pela família. Mas, sua mãe faleceu e 4 anos depois ela teve uma surpresa: seu pai conheceu outra pessoa. Seu Ba Ba estava diferente, queria trocar a receita tradicional do bolinho que sua Ma Ma tanto gostava e parecia ter deixado de acreditar na lenda da deusa Chang’e. Então, para conseguir provar que Chang’e existe e fazer seu Ba Ba voltar a acreditar no amor eterno, Fei Fei decidiu ir à lua encontrar a deusa.

Dede a morte de sua mãe, Fei Fei e seu pai se apoiavam para fazer a vida continuar caminhando. Fei Fei se apegou bastante a coelha de estimação que ganhou de sua mãe, quando ela já estava doente, e a fabricação e venda dos bolinhos da lua. Dentro de suas condições enquanto uma criança, estava tentando lidar com a perda da mãe se apegando ao que a lembrava dela, sendo outros exemplos a boneca de Chang’e e o xale que que sua mãe usava com a imagem da deusa e de seu amado Houyi.

Por outro lado, o pai de Fei Fei estava se sentindo solitário, mas não sabia como falar para a filha. Tentou apresentar a namorada, a Sr. Zhong, e dizer o que sentia, mas parecia que as palavras não saiam de sua boca. O que acabou fazendo a filha entender quem era a mulher que havia acabado de conhecer foi o primeiro contato com Chin, o filho da namorada de seu pai. No jantar do festival, todos pareciam conhecer a Sr. Zhong e o pai de Fei Fei ofereceu o lugar da filha para ela sentar. A dificuldade do pai em lidar com a situação tornava mais difícil para Fei Fei aceitar a entrada de uma nova pessoa na família.

Com isso, Fei Fei inventa um plano de criar um foguete para ir até a lua conhecer a deusa Chang’e. Depois de várias tentativas frustradas, ela consegue montar seu foguete e ir junto com sua coelhinha para o espaço. Mas ela não esperava que seu novo irmão Chin, junto com seu sapo de estimação, iria entrar em seu foguete e ir junto com ela. O peso não planejado trouxe problemas a viagem. Porém, o foguete acabou sendo interceptado e carregado até a lua pelos dragões lunares. Lá, Fei Fei e Chin conhecem a deusa Chang’e, que se mostrava à primeira vista linda e majestosa. Contudo, ela era bem diferente do que eles imaginavam.

A deusa Chang’e estava ainda em luto, frustrada e desesperada para reaver seu amor. Sentia que algo que estava com Fei Fei seria a chave para conseguir trazer Houyi de volta. Por isso pediu os dragões lunares para trazer Fei Fei e esperava que ela lhe desse o presente que faltava para realizar seu desejo. Como Fei Fei não lhe entrega o presente, põe os habitantes da lua para procurar o presente para ela. O pequeno período de convivência entre as duas talvez fosse a chave que estava faltando para Fei Fei entender os sentimentos seus e de seu pai, e, assim, permitir que ambos seguissem em frente.

A entrada de um novo membro em uma família é desafiador. Aos pais da criança cabe tentar explicar da melhor forma possível, dentro das condições de entendimento dela, quem é a pessoa, que o novo membro não substitui um membro anterior e que os sentimentos novos não significa o esquecimento dos antigos, mas sim que novos sentimentos surgiram. Algo que parece ter sido bem feito pela Sr. Zhong, já que Chin estava empolgado com a entrada na nova família. 

Mesmo quando feita da melhor maneira possível a apresentação desse novo membro, a criança pode ter dificuldade por não entender bem ou não saber expressar o que se está sentindo. Neste caso, o papel do adulto é tentar auxiliar a criança a entender os próprios sentimentos e ter paciência para respeitar o tempo dela em conseguir se adaptar a mudança e seguir em frente. As pequenas ações do pai de Fei Fei e da Sr. Zhong para que Fei Fei se sentisse ainda dentro da própria família permitiram a ela o tempo que ela precisava para aceitar a situação. O convívio com Chin lhe trouxe o olhar para novas aprendizagens, permitindo que os dois criassem laços de amizade. Passar por essa fase pode ser difícil e o diálogo sincero junto com ações acolhedoras fazem toda a diferença.

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Sheila Francisca Machado reside em Brasília, é psicóloga clínica, especialista em psicologia clínica e especializada em avaliação psicológica, CRP 01/16880. Atende adolescentes e adultos na Clínica de Nutrição e Psicologia - CLINUP. Atua com a abordagem Análise do Comportamento.
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Os 7 de Chicago e situações de liderança e pressão

9 de abril de 2021

Foto: Netflix / Os 7 de Chicago / Divulgação.

Em 1968, os Estados Unidos estavam intensificando os ataques ao Vietnã, recrutando e enviando cada vez mais jovens para a guerra. Com isso, grupos de jovens antiguerra estavam se formando e alguns desses grupos decidiram protestar em frente a Convenção Nacional Democrata em Chicago. Junto a eles, outros grupos pacifistas também tinham esse objetivo, cada qual com ideias diferentes de como protestar. Até onde esse grupo de pessoas seriam capazes de se unir e agir por um ideal comum? Assim começa o filme “Os 7 de Chicago” (2020).

O desenrolar da história se dá mesmo durante o julgamento em 1969 de 8 rapazes, sendo acusados de formação de quadrilha e incitar tumultos: Bobby Seale (líder do grupo ativista Panteras Negras), Tom Hayden e Rennie Davis (líderes do grupo Estudantes por uma Sociedade Democrática - SDS), Dave Dellinger (líder da Mobilização para Acabar com a Guerra no Vietnã – The Mobe), Abbie Hoffman e Jerry Rubin (líderes do Partido Internacional da Juventude - Yippies), John Froines e Lee Weiner.

O que era para ser um protesto pacífico se tornou um confronto da polícia com os grupos que estavam ali para protestar. Mais de 400 manifestantes ficaram feridos em mais de um dia de protestos, brigas e confusões. No final, os 8 rapazes se tornaram os acusados de organizar o tumulto e interferir na democracia do país. E o julgamento que vemos durante pouco mais de duas horas de filme nos faz questionar o papel de cada um dentro do protesto e o papel das lideranças frente ao grupo que lideram.

O que todos os 8 queriam? Ter a voz ouvida, lutar pacificamente contra a guerra e poder mostrar sua indignação. Mas, enquanto grupos distintos, tinham meios e crenças diferentes sobre como isso poderia ser feito. Alguns acreditavam em um movimento menor, outros em fazer show e ainda tinham os que queriam apenas ter espaço para sua fala. Os ideais eram parecidos, mas eles eram diferentes. O encontro entre todos esses grupos e lideranças distintas formou um grupo maior, com várias lideranças atuando em conjunto, alguns com pensamentos até contraditórios, o que tornou difícil para eles manterem a organização da manifestação, o que culminou em tornar os líderes acusados de crimes.

Não foi um julgamento fácil. Desde o início vemos um juiz parcial, já tendencioso para uma resposta e tentando liderar o júri para o mesmo entendimento que ele. O júri parecia ter sido escolhido para garantir a condenação, o que levantava a suspeita da legitimidade das acusações. Uma sucessão de situações que favorecia de forma questionável o lado da acusação ocorreu, levando ao questionamento de um julgamento político. 

Os 5 rapazes que tiveram mais destaque à frente da organização da manifestação e que foram os grandes alvos do julgamento foram: Tom, Rennie, Dave, Abbie Hoffman e Jerry Rubin. Assim como o pensamento político eram diferentes, a forma que cada um encarava estar no julgamento era diferente. Estavam os cinco sobre grande pressão, mas Tom estava com medo do que aconteceria com ele, Rennie temia esquecer o motivo da luta, Abbie e Jerry viam como uma oportunidade de protestar frente uma autoridade jurídica e quem estivesse acompanhando e Dave procurava manter a calma para sair dali o mais breve possível. Essa pressão também era vista nos advogados, que frequentemente tinham o trabalho atrapalhado pela parcialidade do juiz.

Os dois advogados de defesa se viam precisando tomar decisões para contornar cada novo problema que aparecia no julgamento. Por outro lado, o promotor que estava defendendo o caso sabia que um relatório da investigação apontava a polícia como fonte do início do tumulto, mas precisava cumprir com seu dever junto ao seu chefe e a autoridade superior. A pressão também estava sobre ele que tinha que atender a expectativa de seus superiores de que os jovens fossem condenados.

Bobby Seale enfrentava um problema a parte. Foi a Chicago para um discurso, passou apenas 4 horas lá. Mas era o único que estava preso. Seu direito a ter um advogado de defesa próprio foi negado pelo juiz, assim como seu pedido de autodefesa. Teve seu direito a fala negado várias vezes e passou por situações degradantes durante o julgamento. Seus direitos foram violados na frente de todos da corte e mesmo sabendo que precisava controlar suas reações para não se complicar ainda mais, perdeu a calma em vários momentos. Seu pedido para ser julgado em separado só foi concedido após o promotor questionar o juiz por permitir que os policiais batessem, prendessem as mãos e pés de Bobby e o amordaçassem para que ele ficasse calado frente ao juiz, sem atrapalhar o andamento da seção. Para completar, os dois advogados de defesa dos outros 7 chamarem o juiz de racista pelas atitudes que teve com Bobby durante todo o julgamento.

Muitas emoções são mostradas em tela durante o filme. Algumas de medo, preocupação, raiva e indignação, mas algumas falas dos 8 rapazes mostravam esperança em um mundo mais justo. Mas como cada um tem uma postura diferente para mostrar isso, é normal para quem acompanha ao filme se simpatizar mais pela ideologia de algum dos personagens mostrados em tela. Não nos cabe julgar quem é o certo ou o errado no campo das ideias, mas vale a reflexão sobre o quanto temos condições de lidar com situações de pressão, liderança e de manter um julgamento imparcial, baseado em fatos e não em opiniões.

No caso do filme, vemos uma ação com consequências em grande escala, sendo um dos julgamentos mais famosos dos Estados Unidos, já que o filme é baseado em fatos reais. Mas fazendo um paralelo com questões micro, será que nas pequenas situações do dia a dia temos sido preconceituosos? Temos buscado soluções com menos impacto para os problemas que enfrentamos? Estamos conseguindo lidar bem com as emoções em momentos de pressão? Sabemos exercer ou respeitar posições de liderança? Por mais que sejam em situações pequenas, a dificuldade de lidar com essas questões pode gerar pequenas guerras pessoais que atrapalham a criação de vínculos saudáveis entre as pessoas, gerando efeitos em larga escala.

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Sheila Francisca Machado reside em Brasília, é psicóloga clínica, especialista em psicologia clínica e especializada em avaliação psicológica, CRP 01/16880. Atende adolescentes e adultos na Clínica de Nutrição e Psicologia - CLINUP. Atua com a abordagem Análise do Comportamento.
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